Um
grande square.
Não
há portas. Não há janelas.
Vê-se
o teto, pintado de branco, mas a tinta de baixa qualidade já revela
manchas do reboco primário.
Sabe-se
das paredes pelos seus prolongamentos acima das cabeças de pessoas
que postam-se como grupos definidos.
Ouve-se
ideais antigos e ultrapassados da parede da direita. Sente-se o
totalitarismo da parede da esquerda. Flerta-se com ambas as paredes
os grupos que perfilam a frente da parede sul. Festeja-se lendas os
grupos diversos que ocuparam a parede norte. No centro do square,
mistura-se otimistas covardes e pessimistas corajosos.
Batalha-se
pelo centro, para que ele chegue-se mais para a esquerda ou mais para
a direita.
Os
da parede norte apelam para os céus, para cristo, para os orixás,
para nossa senhora, para rezas, orações e trabalhos; apela-se à
rainha do mar e do céu. Os da parede sul são inconstantes e
medrosos, pois têm muito a perder. Sufoca-se o centro para que
fortaleça um ou outro lado. Igualam-se a parede esquerda e direita
em crer no domínio da verdade.
O
square frequentemente
é quente e palco de grandes violências.
Isola-se
de todos aqueles que tentam uma saída do square.
Não são um grupo, mas independentes. Os totalitários da parede
esquerda e direita os acusam de indiferentes. Rasteja-se
pela parede direita, mas homens e mulheres fundamentalistas os
denunciam. Rasteja-se pela parede esquerda, mas homens e mulheres com
machado e foice nas mãos os ameaçam. Dirige-se para a parede sul e
lá não tem saída, apenas uma parede alta e sólida. Dirige-se para
a parede norte e lá são bombardeados com cruzes, mandingas,
maldições, catequismos, regras, bulas, línguas estranhas, etc.
Volta-se
ao centro. Desanimado. O teto não releva-se mais céu, mas o
concreto repetitivo e rude do reboco primário cada vez mais amostra.
Suicida-se. Adoece-se. Desespera-se. Capitula-se.
[Soube
certa vez que alguém do centro se infiltrou à esquerda. E vestiu-se
de personagem perfeito realizando a mímesis mais inquestionável.
Chegou a situação privilegiada e encontrou uma abertura.
Foi-se.]
[Soube
de um outro do centro que optou à direita. Infiltrou-se. Vestiu-se
de ortodoxo. Usando o Livro abriu aquele mar de gente e como um
ladrão que espera o cochilo de quem vigia, libertou-se]
