Resenha
Para conhecer a realidade do regime soviético é preciso se aventurar nos inúmeros escritores russos que viveram época tão totalitária. "Pavilhão de Cancerosos" é como uma parábola que ilustra bem essa época. Numa enfermaria que abriga pacientes com diversos tipos de câncer sinaliza a verdadeira condição humana, ou seja, aquilo que coloca todas as classes no mesmo nível de igualdade: a morte. Todos morrerão: livres e presos; empregados e empregadores; soldados e civis; autoridades e cidadãos; etc. A doença mortal promove na enfermaria situações diversas, principalmente situações que só são possíveis nessa condição enferma. O orgulho de ostentar uma posição privilegiada na sociedade perde seu valor, os grandes ideais são substituídos por desejos de uma vida simples, a meditação mais profunda se torna cotidiana e isso é sinalizado na questão que permeia toda essa primeira parte da obra, a saber: "por que vive o homem?". Talvez essa seja a grande questão que o autor deseja propôr aos seus personagens e, principalmente, aos leitores. Diante de todas as injustiças provocadas por um regime totalitário e cruel, o homem, ainda que esteja nele inserido, deseja estar vivo. Isso impressiona o autor, pois ele mesmo é um dos personagens reais que sofreram tais injustiças. Certamente, quem lê uma obra dessa grandeza, de compreensão psicológica humana profunda, irá se identificar com alguma personagem. Suas angústias serão as suas também. Infelizmente, ainda não nos livramos desse mal que age como um vírus em todos os organismos de poder. Mesmo em pleno século 21, ainda podemos ver países, grupos, partidos, indivíduos que flertam com ideologias extremistas, seja de direita, seja de esquerda. E isso mantém a obra atual, como nos alertando sobre personagens específicas sempre presentes em grupos intolerantes que se entendem possuidores de uma verdade inquestionável e por isso entendem ter o direito de ditar as regras da sociedade e de todos cidadãos.
Entre aspas
"(...) as únicas pessoas que não cometem enganos são aquelas que não agem, que não fazem coisa alguma!"
"Se seus filhos não são melhores do que você, a sua paternidade terá sido inútil, a sua vida vã" (Gorki)
"Não é o nível da nossa prosperidade que dá a dimensão da nossa felicidade, mas a afinidade de coração para coração e a maneira que olhamos o mundo. Ambas as atitudes estão em nós, dependem de nós e assim, um homem será feliz enquanto achar que é, e ninguém poderá lhe tirar isso."
"As rodas de uma bicicleta, uma vez que comecem a girar, manterão o equilíbrio enquanto estiverem em movimento. Parando o movimento, o equilíbrio acaba. Do mesmo modo, o jogo entre um homem e uma mulher, uma vez iniciado, poderá existir enquanto se for desenvolvendo, desdobrando. Se deixar de hoje ser a continuação progressiva de ontem, o jogo termina."
