segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nova Iguaçu, pulp! - TRÊS




Mário viu a luz do banheiro acesa. Levantou-se devagar com receio de acordar Soraya. Foi até a gaveta e pegou seu 38. Abriu a porta do banheiro e viu Lady K completamente nua. Ele ficou maravilhado com o corpo da mulher. Ela se virou e deu-lhe um sorriso sedutor. Ele tentava se mexer, mas alguma coisa o impedia. Ele via os lábios da mulher se mexerem, mas não ouvia nenhuma palavra. Fechou os olhos e quando abriu se viu em meio à escuridão. Pensou que enquanto fechara os olhos a gostosa apagara a luz e saíra. Impossível. Começou a ouvir batidas leves na porta do escritório, as batidas aumentavam. Ouviu a voz de Osvaldo. Pensou: “O que esse porra quer agora?” Levantou do sofá-cama num salto com o olhar surpreso de Soraya.

- Você estava tendo um pesadelo, querido. - Disse num sussurro Soraya.

- Ora, por que você não me acordou, mulher? - Disse com raiva o detetive.

- Mas dizem que faz mal acordar pessoas durante um pesadelo… - Justificou-se a moça.

Agora esmurravam a porta. Mário virou-se para a porta e viu duas silhuetas. Uma era a de Lady K e a outra da anta do Osvaldo. Mário pensou: “Hoje arrebento com esse zelador de merda e depois como a bunda dessa Lady K.”

- Soraya, querida, abra a porta e peça para a senhora sentar e me aguardar e manda o homenzinho que está com ela para a puta que o pariu. - Pediu o detetive.

- Então, estou contratada? - Perguntou a sorridente Soraya.

- Contratada? Ah, sim, que seja. Vou ao banheiro e em cinco minutos estou de volta. Outra coisa faça um café. - Ordenou o chefe à nova secretaria.

- Sim, senhor. - Respondeu a moça prestando continência.

Mário entrou no banheiro e bateu a porta atrás de si. Soraya atendeu a porta e viu Osvaldo suado pelo esforço e Lady K, linda e perfumada.

- Bom dia, seja bem vinda. Desculpa a demora, doutor Mário já atenderá a senhora. - Disse a secretária tentando não errar na educação e nem na linguagem.

- Tá. - Respondeu Lady K com certa indiferença.

- Doutor Mário? Quem é esse? Inquilino novo? - Perguntou ironicamente Osvaldo.

- O senhor pode se retirar e continuar seu trabalho lá fora e não incomode o doutor Mário. - Respondeu ameaçadoramente Soraya. Osvaldo saiu xingando.

Soraya tentava improvisar um café. Acomodou Lady K no sofá-cama, onde há poucos, ela e Mário treparam. Lady K tirou um Lucky Strike e começou a fumar. Mário sentiu o cheiro do tabaco torrado e ficou excitado. As palavras de Lady K retornavam a sua mente: “Você mata?”. Certamente por muitos anos ainda aquele cheiro ficaria ligado a esta pergunta em seu ser.

- Olá, senhora, como passou a noite? - Mário saiu do banheiro cumprimentando a mulher.

- Ok. Vamos tratar de nosso negócio, Mário? - Disse a objetiva madame.

- Sim, com certeza. - Concordou, Mário.

- Quem é essa? - Lady K falava sem olhar para Soraya.

- Ah, desculpe-me, essa é minha nova secretária, Soraya. - Disse Mário sorrindo tentando provocar um clima amistoso.

- Não quero ela aqui. Todas as vezes que eu estiver aqui para tratar de nosso negócio não quero essa mulher aqui, estamos entendidos? - Os olhos de K fuzilavam os de Mário.

- Ok, mas Soraya é de confiança. Mas não tem problema, ela vai esperar lá fora. Ok, querida? Lá fora. - Mário falava olhando para Soraya e com a cabeça fazia-lhe sinal para que saísse. Soraya irritada fuzila K e sai do escritório batendo a porta. Mário levanta-se, chega à janela e vê Soraya atravessando a rua e sumindo no calçadão de Nova Iguaçu já inundado de zumbis do dia-a-dia. Mário retorna à mesa e senta-se diante da estonteante K.

- Assim está melhor. - Disse K enquanto soprava a cheirosa fumaça de seu Lucky Strike.

- Está com calor, quer que eu ligue o ar? - Disse Mário já se levantando para ligar um velho condicionador de ar que dificilmente funcionaria.

- Está um calor infernal, mas pode deixar, esse lixo não deve funcionar. - Respondeu a madame com desprezo.

- Ok, você que manda, chefia. - Mário retorna à mesa e fita K, esperando que ela comece. A bela mulher dá a última tragada no tabaco e sopra a fumaça no rosto de Mário. Ele fecha os olhos e entra em transe. Se sente leve e começa a flutuar. Duas mulheres nuas começam a beijá-lo. Depois elas o jogam sobre a mesa e começam a despi-lo. Uma delas começa a cavalgar-lhe e a outra continua beijando-lhe. Mário sente o coração disparar, fica alucinado com a morena linda que lhe cavalga e a loira com hálito de tabaco torrado chupando sua língua. A morena que cavalga parece lhe dizer: “Está gostoso, doutor Mário?” - Soraya? - Mário sai do transe e não avista K, ela não estava mais a sua frente. Levanta assustado e quando vira em direção à janela, vê a bela senhora em pé, de costas, chorando. Um choro baixinho, sentido, choro de dama machucada. Mário tenta relaxar, olha para seu pau e vê que ainda está com ereção. Senta-se e espera. Quando, enfim, se acalma vai até a dama e a consola: - Por que o choro? Vou te ajudar, Lady, confia em mim. Não há caso que eu não consiga resolver.

- O que houve? - Perguntou K sobre o desmaio de Mário.

- Nada, tenho essas coisas desde menino, mas nada que se deva preocupar. É como um reset, entende? - Explicou Mário. - Agora me diz o que está acontecendo, vamos tratar desse problema. - Mário decide enfim saber o que angustia aquela deusa.

- A coisa é simples. Preciso de liberdade. Casei com um milionário. Ele é trinta anos mais velho que eu. Já estamos casados há cinco anos. Nesse tempo todo fui fiel, pode acreditar. Mas cansei, quero ser livre, namorar homens de minha idade, entende? Falei com ele que queria me separar amigavelmente, bastava ele me dar o mínimo para viver decentemente e pronto: liberdade. Não queria ser milionária, mas apenas rica. Poder viajar, comprar um bom carro, um bom apartamento. Mas ele não aceitou e disse que se eu o abandonasse eu deveria sair sem nada. Mas depois de cinco anos a gente se acostuma com a vida boa, sabe? Não quero ter a vida que meus pais tiveram. Não sei ser pobre. Insisti com ele, implorei, me humilhei e nada. Ele tem duas filhas, elas me entenderam e tentaram convencê-lo e nada. Meus dias são tristes, meus pais já morreram, não tenho irmãos e nem amigos. Vivo numa mansão sozinha. Já tentei me matar, mas a minha esperança ainda não me abandonou por completo. Li seu anúncio num jornal e vi que ficava nesse fim de mundo. Pensei que você vinha a calhar. Misturei-me às pessoas há um mês e vi a sua situação caótica, você era o detetive perfeito para mim, para meu plano. Fim de mundo, detetive desmotivado, situação financeira desesperadora. Desculpe-me a sinceridade, mas o desespero nos enche de ousadia. Mário, preciso de você para alcançar minha liberdade, você tem que me libertar. Estou disposta a te fazer um sujeito rico, muito rico!

Mário estava chocado. Nunca sofrera aquele fuzilamento de sinceridade e de insulto. Uma jovem e bela mulher descarregava toda sua angústia sobre ele. Pela primeira vez, Mário sentiu que K era realmente humana, sua voz era real, suas mazelas eram palpáveis. Sentiu ódio e vontade de pular sobre a mulher e encher-lhe de porrada. Contudo, quando sentia seu cheiro mudava de opinião. Entendia que tinha diante de si uma espécie rara de fêmea. Ela toda era o mundo. Ele a desejou desde a primeira vez que a viu. Seu corpo era perfeito e apetitoso. E também tinha a coisa do dinheiro. Mário amava as mulheres e sabia que o caminho mais rápido entre um homem e uma mulher era o dinheiro. E essa regra é diretamente proporcional, ou seja, mais dinheiro, mais mulheres. As últimas palavras de K revelavam que Mário de certa forma tinha a madame em suas mãos. Então Mário resolveu engolir o orgulho e aproveitar a oportunidade, pois como dizia William: a oportunidade tem cabelos na frente e é careca atrás, não a deixe escapar, pois não conseguirá mais agarrá-la.

- Madame K, não fique assim, tente se acalmar. Conte-me o seu plano e iremos juntos tomar uma decisão perfeita. - Mário acolhia a dama em seus braços e ela não resistia. Ele a levou até o sofá-cama, trouxe um café e esperou que ela falasse.

- Obrigada, Mário. Olha, você terá que matá-lo. Lembra quando lhe perguntei se matava? É isso, preciso que você simule algum acidente. Eu já pensei em suicídio, digo, o suicídio dele. Eu poderia envenená-lo, mas eu sei que a polícia adora desvendar casos milionários, então fiquei com medo. Eu quero sair ilesa, entende? - K falava aos soluços e com a cabeça recostada no sofá-cama. Mário olhando aquela mulher vulnerável tinha que se esforçar muito para não tentar possuí-la ali mesmo.

- Madame, olha. Evite de falar sobre isso, sabe? Que deseja matá-lo, ok? Eu já entendi seu desejo, mas vamos tratar disso como o “problema”, entende? Esse prédio velho é cheio de fantasmas. - Mário falava olhando para a porta do escritório.

- Sim, entendo, desculpe-me. - K agora se sentava e tentava limpar as lágrimas com um lenço.

- Escute. Quero que você vá para casa e me mande por e-mail tudo que você puder me mandar de seu milionário, tá? Nome, idade, passatempos, propriedades, etc., tudo mesmo, entendeu? - Mário sabia que aquele dia não conseguiria mais nada dela. Ela estava exausta, emocionalmente exausta e o melhor era ela ir para casa e depois com calma fornecer todos os dados sobre o defunto.

- Está bem, Mário. - Capitulou a bela.

- Mais uma coisa, madame, poderia adiantar mais uma grana… - K virou-se para o detetive com um olhar inquisidor. Era outra pessoa.

- Como? Como ousa me pedir mais dinheiro depois de tudo que lhe dei hoje? Uma morena que cavalgava em você e eu a lhe chupar a língua! Como ousa? - K pegou a bolsa, virou-se e saiu batendo a porta quase quebrando a parte de vidro com o número 13. Mário engoliu a seco o espírito e com os olhos arregalados olhava para o nada.

A primeira edição

          Assim se deu o diálogo entre dois velhos amigos: - É apenas um livro. - Não, não é apenas um livro, mas a primeira e...