Mário
viu a luz do banheiro acesa. Levantou-se devagar com receio de
acordar Soraya. Foi até a gaveta e pegou seu 38. Abriu a porta do
banheiro e viu Lady K completamente nua. Ele ficou maravilhado com o
corpo da mulher. Ela se virou e deu-lhe um sorriso sedutor. Ele
tentava se mexer, mas alguma coisa o impedia. Ele via os lábios da
mulher se mexerem, mas não ouvia nenhuma palavra. Fechou os olhos e
quando abriu se viu em meio à escuridão. Pensou que enquanto
fechara os olhos a gostosa apagara a luz e saíra. Impossível.
Começou a ouvir batidas leves na porta do escritório, as batidas
aumentavam. Ouviu a voz de Osvaldo. Pensou: “O que esse porra quer
agora?” Levantou do sofá-cama num salto com o olhar surpreso de
Soraya.
-
Você estava tendo um pesadelo, querido. - Disse num sussurro Soraya.
-
Ora, por que você não me acordou, mulher? - Disse com raiva o
detetive.
-
Mas dizem que faz mal acordar pessoas durante um pesadelo… -
Justificou-se a moça.
Agora
esmurravam a porta. Mário virou-se para a porta e viu duas
silhuetas. Uma era a de Lady K e a outra da anta do Osvaldo. Mário
pensou: “Hoje arrebento com esse zelador de merda e depois como a
bunda dessa Lady K.”
-
Soraya, querida, abra a porta e peça para a senhora sentar e me
aguardar e manda o homenzinho que está com ela para a puta que o
pariu. - Pediu o detetive.
-
Então, estou contratada? - Perguntou a sorridente Soraya.
-
Contratada? Ah, sim, que seja. Vou ao banheiro e em cinco minutos
estou de volta. Outra coisa faça um café. - Ordenou o chefe à nova
secretaria.
-
Sim, senhor. - Respondeu a moça prestando continência.
Mário
entrou no banheiro e bateu a porta atrás de si. Soraya atendeu a
porta e viu Osvaldo suado pelo esforço e Lady K, linda e perfumada.
-
Bom dia, seja bem vinda. Desculpa a demora, doutor Mário já
atenderá a senhora. - Disse a secretária tentando não errar na
educação e nem na linguagem.
-
Tá. - Respondeu Lady K com certa indiferença.
-
Doutor Mário? Quem é esse? Inquilino novo? - Perguntou ironicamente
Osvaldo.
-
O senhor pode se retirar e continuar seu trabalho lá fora e não
incomode o doutor Mário. - Respondeu ameaçadoramente Soraya.
Osvaldo saiu xingando.
Soraya
tentava improvisar um café. Acomodou Lady K no sofá-cama, onde há
poucos, ela e Mário treparam. Lady K tirou um Lucky Strike e começou
a fumar. Mário sentiu o cheiro do tabaco torrado e ficou excitado.
As palavras de Lady K retornavam a sua mente: “Você mata?”.
Certamente por muitos anos ainda aquele cheiro ficaria ligado a esta
pergunta em seu ser.
-
Olá, senhora, como passou a noite? - Mário saiu do banheiro
cumprimentando a mulher.
-
Ok. Vamos tratar de nosso negócio, Mário? - Disse a objetiva
madame.
-
Sim, com certeza. - Concordou, Mário.
-
Quem é essa? - Lady K falava sem olhar para Soraya.
-
Ah, desculpe-me, essa é minha nova secretária, Soraya. - Disse
Mário sorrindo tentando provocar um clima amistoso.
-
Não quero ela aqui. Todas as vezes que eu estiver aqui para tratar
de nosso negócio não quero essa mulher aqui, estamos entendidos? -
Os olhos de K fuzilavam os de Mário.
-
Ok, mas Soraya é de confiança. Mas não tem problema, ela vai
esperar lá fora. Ok, querida? Lá fora. - Mário falava olhando para
Soraya e com a cabeça fazia-lhe sinal para que saísse. Soraya
irritada fuzila K e sai do escritório batendo a porta. Mário
levanta-se, chega à janela e vê Soraya atravessando a rua e sumindo
no calçadão de Nova Iguaçu já inundado de zumbis do dia-a-dia.
Mário retorna à mesa e senta-se diante da estonteante K.
-
Assim está melhor. - Disse K enquanto soprava a cheirosa fumaça de
seu Lucky Strike.
-
Está com calor, quer que eu ligue o ar? - Disse Mário já se
levantando para ligar um velho condicionador de ar que dificilmente
funcionaria.
-
Está um calor infernal, mas pode deixar, esse lixo não deve
funcionar. - Respondeu a madame com desprezo.
-
Ok, você que manda, chefia. - Mário retorna à mesa e fita K,
esperando que ela comece. A bela mulher dá a última tragada no
tabaco e sopra a fumaça no rosto de Mário. Ele fecha os olhos e
entra em transe. Se sente leve e começa a flutuar. Duas mulheres
nuas começam a beijá-lo. Depois elas o jogam sobre a mesa e começam
a despi-lo. Uma delas começa a cavalgar-lhe e a outra continua
beijando-lhe. Mário sente o coração disparar, fica alucinado com a
morena linda que lhe cavalga e a loira com hálito de tabaco torrado
chupando sua língua. A morena que cavalga parece lhe dizer: “Está
gostoso, doutor Mário?” - Soraya? - Mário sai do transe e não
avista K, ela não estava mais a sua frente. Levanta assustado e
quando vira em direção à janela, vê a bela senhora em pé, de
costas, chorando. Um choro baixinho, sentido, choro de dama
machucada. Mário tenta relaxar, olha para seu pau e vê que ainda
está com ereção. Senta-se e espera. Quando, enfim, se acalma vai
até a dama e a consola: - Por que o choro? Vou te ajudar, Lady,
confia em mim. Não há caso que eu não consiga resolver.
-
O que houve? - Perguntou K sobre o desmaio de Mário.
-
Nada, tenho essas coisas desde menino, mas nada que se deva
preocupar. É como um reset,
entende? - Explicou Mário. - Agora me diz o que está acontecendo,
vamos tratar desse problema. - Mário decide enfim saber o que
angustia aquela deusa.
-
A coisa é simples. Preciso
de liberdade. Casei com um milionário. Ele é trinta anos mais velho
que eu. Já estamos casados há cinco anos. Nesse tempo todo fui
fiel, pode acreditar. Mas cansei, quero ser livre, namorar homens de
minha idade, entende? Falei com ele que queria me separar
amigavelmente, bastava ele me dar o mínimo para viver decentemente e
pronto: liberdade. Não queria ser milionária, mas apenas rica.
Poder viajar, comprar um bom carro, um bom apartamento. Mas ele não
aceitou e disse que se eu o abandonasse eu deveria sair sem nada. Mas
depois de cinco anos a gente se acostuma com a vida boa, sabe? Não
quero ter a vida que meus pais tiveram. Não sei ser pobre. Insisti
com ele, implorei, me humilhei e nada. Ele tem duas filhas, elas me
entenderam e tentaram convencê-lo e nada. Meus
dias são tristes, meus pais já morreram, não tenho irmãos e nem
amigos. Vivo numa mansão sozinha. Já tentei me matar, mas a minha
esperança ainda não me abandonou por completo. Li seu anúncio num
jornal e vi que ficava nesse fim de mundo. Pensei que você vinha a
calhar. Misturei-me às pessoas há um mês e vi a sua situação
caótica, você era o detetive perfeito para mim, para meu plano. Fim
de mundo, detetive desmotivado, situação financeira desesperadora.
Desculpe-me a sinceridade, mas o desespero nos enche de ousadia.
Mário, preciso de você para
alcançar minha liberdade, você tem que me libertar. Estou disposta
a te fazer um sujeito rico, muito rico!
Mário
estava chocado. Nunca sofrera aquele fuzilamento de sinceridade e de
insulto. Uma jovem e bela mulher descarregava toda sua angústia
sobre ele. Pela primeira vez, Mário sentiu que K era realmente
humana, sua voz era real, suas mazelas eram palpáveis. Sentiu
ódio e vontade de pular sobre a mulher e encher-lhe de porrada.
Contudo, quando sentia seu cheiro mudava de opinião. Entendia que
tinha diante de si uma espécie rara de fêmea. Ela toda era o mundo.
Ele a desejou desde a primeira vez que a viu. Seu corpo era perfeito
e apetitoso. E também tinha a coisa do dinheiro. Mário amava as
mulheres e sabia que o caminho mais rápido entre um homem e uma
mulher era o dinheiro. E essa regra é diretamente proporcional, ou
seja, mais dinheiro, mais mulheres. As
últimas palavras de K revelavam que Mário de certa forma tinha a
madame em suas mãos. Então Mário resolveu engolir o orgulho e
aproveitar a oportunidade, pois como dizia William: a
oportunidade tem cabelos na frente e é careca atrás, não a deixe
escapar, pois não conseguirá mais agarrá-la.
-
Madame K, não fique assim, tente se acalmar. Conte-me o seu plano e
iremos juntos tomar uma decisão perfeita. - Mário acolhia a dama em
seus braços e ela não resistia. Ele a levou até o sofá-cama,
trouxe um café e esperou que ela falasse.
-
Obrigada, Mário. Olha, você terá que matá-lo. Lembra quando lhe
perguntei se matava? É isso, preciso que você simule algum
acidente. Eu já pensei em suicídio, digo, o suicídio dele. Eu
poderia envenená-lo, mas eu sei que a polícia adora desvendar casos
milionários, então fiquei com medo. Eu quero sair ilesa, entende? -
K falava aos soluços e com a cabeça recostada no sofá-cama. Mário
olhando aquela mulher vulnerável tinha que se esforçar muito para
não tentar possuí-la ali mesmo.
-
Madame, olha. Evite de falar sobre isso, sabe? Que deseja matá-lo,
ok? Eu já entendi seu desejo, mas vamos tratar disso como o
“problema”, entende? Esse prédio velho é cheio de fantasmas. -
Mário falava olhando para a porta do escritório.
-
Sim, entendo, desculpe-me. - K agora se sentava e tentava limpar as
lágrimas com um lenço.
-
Escute. Quero que você vá para casa e me mande por e-mail tudo que
você puder me mandar de seu milionário, tá? Nome, idade,
passatempos, propriedades, etc., tudo mesmo, entendeu? - Mário sabia
que aquele dia não conseguiria mais nada dela. Ela estava exausta,
emocionalmente exausta e o melhor era ela ir para casa e depois com
calma fornecer todos os dados sobre o defunto.
-
Está bem, Mário. - Capitulou a bela.
-
Mais uma coisa, madame, poderia adiantar mais uma grana… - K
virou-se para o detetive com um olhar inquisidor. Era outra pessoa.
-
Como? Como ousa me pedir mais dinheiro depois de tudo que lhe dei
hoje? Uma morena que cavalgava em você e eu a lhe chupar a língua!
Como ousa? - K pegou a bolsa, virou-se e saiu batendo a porta quase
quebrando a parte de vidro com o número 13. Mário engoliu a seco o
espírito e com os olhos arregalados olhava para o nada.
