segunda-feira, 29 de maio de 2017

O estuprador




Ele ficou sentado numa mureta e esperava o momento ideal para entrar no prédio. Sabia que o apartamento da bela Júlia era o 302. Ele já vinha a observando há meses. Sabia que ela não reparava nele. Ele já conhecia todo o cotidiano da jovem mulher e de seu marido. O marido acordava cedo e saía para o trabalho e só voltava no fim da tarde. Ela acordava junto com ele e fazia algumas arrumações no pequeno apartamento de 50 metros quadrados e descia para ir ao mercadinho. Quando não precisava ir ao mercadinho, mesmo assim ela descia e ia até a praça com seu celular e ficava ouvindo música.

Júlia tinha a pele branca, cabelos negros e um belo corpo todo proporcional. Ela sempre descia com um vestido um pouco acima do joelho e um lenço no cabelo. Ele a espreitava como uma sombra. Como uma serpente no jardim esperando o momento certo para atacar. Finalmente o dia chegara. Ele tinha tudo bem armado, mas o medo sempre o atrapalhava colocar o plano em ação. Hoje era o dia. Ele sabia que às 10 horas Júlia desceria e às 11 horas já estaria de volta. No entanto, seu plano era que ele entraria no prédio durante o tempo que ela estivesse fora. Ele conhecia o prédio por dentro e a cada andar havia como um porão sob as escadas. Porão que não era utilizado por nenhum morador e servia bem de esconderijo. Ele esperaria Júlia sair e entraria no prédio. O prédio não tinha porteiro e o zelador vinha apenas duas vezes por semana. O prédio só tinha interfone e na terça-feira não era o dia do zelador. Ele também sabia que todos os dias, por volta das dez e meia, uma senhora gorda saía do prédio com bastante dificuldade. E era justamente nesse momento que ele agiria.

Na hora prevista, nem um segundo a mais e a menos, saiu Júlia. Estava linda e o coração dele acelerou. Esperou na mureta pela senhora gorda. Próximo das dez e meia a porta do prédio começava a se abrir lentamente, ele sabia que deveria ser a senhora gorda com suas duas bolsas pesadas. Deu um salto e em poucos segundos chegou à porta do prédio todo solícito.

- Quer ajuda, senhora?

- Ah, sim, meu filho, muito obrigada.

- Pode deixar que eu fecho a porta.

- Ah, não se preocupe, ela bate sozinha.

Ele sabia disso, mas também sabia que quanto mais se abrisse a porta mais lento era seu retorno. E foi justamente nesse momento que aproveitou para se lançar dentro do prédio. O coração disparava, começava a suar e subiu as escadas velozmente. No terceiro andar e em frente ao apartamento de Júlia se camuflou na escuridão do falso porão sob a escada. Tentou se acalmar para diminuir o batimento cardíaco e o som de sua respiração. Quando ficou mais calmo lembrou não ter ouvido a porta do prédio bater. Isso o deixou preocupado, pois não ouviria as próximas entradas. E foi o que aconteceu quando Júlia chegou das compras do mercadinho. Ele só soube que ela chegava pelo barulho de seus passos cansados subindo a escada. Ele emudeceu-se por completo e entrou em êxtase quando viu a bela silhueta de Júlia tentando abrir a porta de seu apartamento enquanto segurava desengonçadamente duas sacolas de compra. Enfim, a moça conseguiu abrir a porta e os sons externos não existiam para ela, pois em sua mente fluía em alto volume uma sonata de Beethoven que entrava pelos seus tímpanos por meio dos fones de seu celular. Quando ela se virou para fechar a porta, o sujeito se projetou em sua frente e lhe deu um empurrão. Em seguida fechou a porta e a trancou. Júlia assustada com as compras arremessadas sobre si, o celular ainda tocando por um fone que não se desprendera de seu ouvido não conseguia nenhuma reação, pois ficara estática pelo pânico. O homem lançou-se sobre ela com uma faca nas mãos a ameaçando cortar-lhe a garganta se gritasse. O corpo de Júlia reagia involuntariamente, fechando todas as entradas. A adrenalina na jovem mulher provocava-lhe espasmos incontroláveis. Não sabia o que fazer. O agressor a beijava e levantava seu vestido. Depois, abruptamente, abriu a parte de cima do vestido com violência expondo os belos e fartos seios de Júlia. Ela agora chorava sem forças e pedia misericórdia, mas o estuprador dominado pelo desejo doentio não tinha a razão sob controle, apenas a vontade de saciar seus desejos. Ele decide levantá-la e levá-la até a cama e nesse exato momento a porta do apartamento de Júlia é arrombada e um homem de meia idade entra com uma pistola em punho e pronta para fazer justiça. O agressor assustado vira-se largando Júlia no chão, o sujeito descarrega a pistola no peito do estuprador que cai ensanguentado ao lado de Júlia.

O atirador empurra o criminoso e levanta Júlia a ajudando com o vestido e a se recompor. Ele não diz uma palavra e ela está em choque. Algumas vozes no corredor começam a sussurrar. Alguém diz que já chamou a polícia. Júlia abraça seu salvador e começa a chorar em prantos. Ele espera alguns minutos, sabe que tem pouco tempo até a polícia chegar. Retira os braços de Júlia que enlaçavam seu pescoço, guarda a pistola e sai. Uma vizinha entra para consolar Júlia. O homem sai e é encarado por dois vizinhos de Júlia. Um deles diz:

- Sai pelos fundos.

- Obrigado.

O homem sai pelos fundos alguns minutos antes da chegada da polícia. Vai para casa e toma um banho. Após o banho se veste e pega o resto de uma pizza congelada e uma lata de cerveja. Senta no sofá e liga a TV. Enquanto assiste uma partida de futebol o programa é interrompido por um plantão que anunciava a morte de um estuprador por um atirador desconhecido. A polícia suspeita de um justiceiro.

domingo, 28 de maio de 2017

Outros (im)Possíveis Mundos




- Quando isso aconteceu?

- Na aula de poesia.

Virgínia tem quinze anos e está apaixonada pelo seu jovem professor de literatura. Na primeira vez que ele ouviu seu nome, falou para ela sobre Virgínia Woolf. E desde esse dia, Virgínia não parou de ler Woolf. Carlos tem trinta anos e por ser jovem e carismático, costuma despertar algumas paixões juvenis. Ele já está acostumado com isso, mas Virgínia é diferente. Ela é doce, sonhadora e sincera. Carlos é casado e ama a esposa, mas Virgínia sempre mexe com seus sentimentos. Talvez por que Virgínia ame a literatura, coisa que não encontrou na esposa. No início, Carlos pensou que passaria, mas o interesse da jovem pela obra de Woolf e as construções literárias que criava a partir da leitura da escritora, maravilhavam Carlos. A admiração virou paixão e a paixão começa a flertar com o amor. Na verdade, Carlos estava gostando muito dessa paixão literária. Virgínia não saía de sua cabeça. Muitas vezes, em seu escritório, entrava em verdadeiro transe pensando na jovem. Mas quando lembrava de sua idade sentia vergonha, sentia-se imoral. Porém, depois algumas perguntas sussurravam sua mente: “Amar é imoral?”, “O desejo deve respeitar idades, paradigmas?”.

- Ele sabe disso?

- Eu sei que ele sabe. Sei pelo seu olhar. Ele me olha como se quisesse me confessar algo.

- Então, você se acha correspondida?

- Sim, tenho certeza. Ele também me deseja. Mas quando penso em sua idade me entristeço. Não poderemos ficar juntos nunca nesta vida, nesta situação que estamos presos. E ele é casado.

- Sei. Olha, Virgínia, isso pode ser passageiro…

- Não, não é. É amor. E o amor nunca é passageiro.

Certa vez lancharam juntos no intervalo. Ela comia um salgado com coca-cola e ele um hamburguer. Conversavam sobre livros. Ele dizia que amava a literatura russa e ela começou a ler Tchekov. Ele recitava Goethe e ela o ouvia admirada.

- Que tal montarmos uma peça de Shakespeare?

- Seria ótimo, professor!

- Romeu e Julieta?

- Sim, vou falar com a turma e o senhor fala com a direção.

Em casa, depois do jantar, Virgínia costumava conversar com seu pai. Seu pai não era um acadêmico diplomado, mas amava os livros. Ela entendia que a paixão literária vinha dele, mas o despertar vinha de Carlos. O pai plantou a semente e Carlos a floresceu. O pai tinha quarenta anos, Carlos tinha trinta, os anos nada têm a ver com as relações, mas, estas são ligadas pelas ideias.

- Pai, você já leu algum livro de Virgínia Woolf?

- Não, mas vejo que você sim.

- Sim, me identifico muito com ela.
- No que você se identifica com ela?

- Em muitas coisas, pai, mas a ideia da imaginação ser superior à realidade me fascina. Não vivemos pautados pela realidade, mas pela imaginação.

- Isso me lembra Kierkegaard.

- Quem é esse?

- Foi um filósofo. Ele dizia que a verdade é a subjetividade.

- E?

- Ora, é a mesma coisa que você disse sobre Virgínia Woolf.

- Ah, tá. Sabe, pai, gosto dessa ideia de criar mundos que nos encaixaríamos melhor. Um mundo mais a cara de cada um. Se o Paraíso existir, gostaria que fosse assim, sabe?, um local onde poderíamos criar mundos perfeitos e cada pessoa que se identificasse com o seu mundo ajudaria a construí-lo.

- Rá, legal, filha. Mas isso é só poesia. Vejo que minha menina é uma sonhadora…

- Sim, papai, sua filhinha é uma sonhadora… Rá!

Virgínia gostava dessas conversas com seu pai. Quando deitava, antes de pegar no sono imaginava o seu mundo perfeito. Ela amaria Carlos sem se preocupar com suas idades. Ela leria o que quisesse ler e recitaria em alta voz as poesias que quisesse. Não haveria julgamentos, mas cada um seria verdadeiramente livre. Teríamos a ousadia de sermos nós mesmos sem se preocupar com os olhos alheios. Virgínia jamais tirava de seu mundo as tensões, mas elas seriam travadas na discussão das ideias. Ela eliminava as ortodoxias, os fundamentalismos, os totalitarismos. Seria proibida qualquer tentativa de se criar um cânon de ideias sagradas. Não existiria nada fixo, terminado. A única coisa fixa seria o direito de todos opinar livremente. Ela concordava com o pai que era uma sonhadora e que suas ideias eram pueris e utópicas, mas elas lhe alegravam, eram prazerosas.

- Cuidado, Virgínia, você pode se machucar e machucar os outros.

- Eu sei. Já desisti da possibilidade de um dia poder ficar com ele. Mas o que foi impresso em meu coração e o mundo que foi criado a partir disso jamais se apagará. Não ouso interferir em sua família, mas seguirei com esse sentimento lindo que enche meu coração de ideias e minha mente de prazer. Não vou lhe dizer que não desejo me entregar a ele, mesmo que fosse uma única vez, mas se isso nunca for possível posso viver com o mundo ideal que criei para nós.

- Nossa! É paixão real, menina!

- Sim.

Carlos entrou na sala. Sentou-se e abriu um livro enquanto esperava todos os alunos sentaram-se. Depois que fizeram silêncio abriu um bloquinho com algumas anotações. Começou a ler uma lista de citações românticas. Virgínia estava consumida com a voz do seu amado e com as palavras recitadas. O resto da sala ouvia em meio a risadinhas e indiferenças juvenis. Ele dizia: “Nada escrevi que prestasse até que comecei a amar”, “No amor alternam a alegria e a dor” e muitas outras.

- Não falo, não suspiro, não escrevo seu nome. Mas a lágrima que agora queima a minha face me força a fazê-lo. Lord Byron.

Carlos pegou suas coisas, despediu-se da turma, lançou um olhar a Virgínia e saiu. Todos olharam para Virgínia e ela muda deixava uma lágrima solitária e corajosa percorrer toda sua face, descer pelo pescoço e escorrer pelo braço e se perder no espaço invisível de um mundo que ainda está por nascer.

sábado, 27 de maio de 2017

Nova Iguaçu, pulp! - QUATRO




Mário não queria pensar sobre aquele transe. Transe que pensava ser só dele e jamais esperaria que Lady K soubesse o que tinha acontecido. Contudo, seu pensamento retornava à Soraya. Sentia-se responsável por ela. Ela estava motivada por ter encontrado casa e sexo; e ele a enxotara. Ele a viu sair do prédio e se misturar à massa do calçadão de Nova Iguaçu. Ele não a conhecia bem para saber seus esconderijos. Alguns pensamentos o perturbavam. “Será que ela voltara para o bar do Peixoto?”, “Será que ela procurara seu antigo cafetão?”. Mário pegou seu 38 e desceu para a rua. Na saída do prédio, Osvaldo zombeteiramente, gritou:

- Olá, doutor Mário, aonde vai com tanta pressa! - Mário empurrou o zelador e o amaldiçoou.

Em poucos minutos, Mário já estava consumido pela multidão de zumbis do calçadão. Resolveu vasculhar por alguns becos onde tinha alguns conhecidos e deixou para procurá-la no Peixoto por último. Pensava que se estivesse no Peixoto estaria bem. Mário andava de pressa, coisa comum entre os moradores da Baixada Fluminense. Resolveu ir ao Iguaçu Center, uma galeria que nos anos 80 era o único lugar com cinema em Nova Iguaçu. Hoje era uma galeria sem expressão nenhuma e as duas salas de cinema passavam filmes eróticos. As salas de cinema viraram local para putas e travecos. Lembrou-se de Joana, uma moça que namorou e era bilheteira de uma das salas, Joana conhecia muita gente.

Mário não viu movimento na entrada do cine sexo. Resolveu tomar um refresco numa birosca da galeria. Pediu um refresco de laranja com acerola e sentou-se para esperar Joana. Olhava o movimento da galeria na esperança de ver Soraya. Nada. Por um momento se sentiu um idiota por estar preocupado com uma puta qualquer que passara a noite com ele e já se achava sua esposa. No entanto, esse pensamento dissipava quando lembrava do corpo de Soraya e sua entrega total. A vida machucara bastante Mário, mas aquela mulher, definitivamente, mexera com ele.

- Olha aqui esses filhos da puta! - Berrava o dono da birosca brandindo um pedaço de jornal amassado. - Olha aqui esses filhos da puta!

- Do que você está falando, amigo? - Perguntou o curioso detetive.

- Desses putos traficantes de papagaios e araras! - O homem falava com muito ódio e salivava irritantemente.

- O que eles fazem com as aves – Quis saber Mário.

- O que eles fazem? Esses putos exportam os bichinhos para os gringos! Se eu pegasse um desses filhos da puta… - Mário deixou o homem falando sozinho, pois via que se aproximava Joana do caixa do cine puteiro.

Mesmo sozinho o homem continuava a brandir o jornal e dizer desaforos aos traficantes de aves exóticas. Mário se aproximou pelas costas de Joana e tapou-lhe os olhos. A mulher levou um susto e virou-se de imediato, pensando se tratar de assalto ou algum tarado. Coisa que não faltava naquela galeria infernal iguaçuana.

- Porra, Mário, que susto! - Disse nervosa a caixa do cinema do prazer.

- Desculpa, meu anjo. Como você está? - Disse sorrindo o detetive enquanto olhava por inteiro a mulher.

Joana não era bonita como Lady K e nem sensual como Soraya, mas era uma mulata boazuda. Mário sentiu vontade de transar com ela quando lembrou dela nua. Mas ao observar sua mão direita viu-lhe uma aliança.

- Está noiva? - Perguntou surpreso Mário.

- Sim, estou. - Respondeu a mulata com certo orgulho e prazer em provocar certa frustração em seu antigo amante.

- De quem, sua safada? - Mário sabia que Joana adorava ser chamada de safada.

- Olha o respeito, Mário. Meu noivo é o atual dono das duas salas do iguaçu cine center. - Respondeu a mulher sem disfarçar o orgulho.

- Hahaha – Mário gargalhava tão alto que chamou a atenção da massa proletária que usava a galeria apenas para atravessar para o outro lado, o lado da linha do trem.

- Para com isso, seu retardado, não vê que todos estão olhando? - Joana agora se mostrava irritada.

- Tá bom, querida. Olha só, você conhece alguma Soraya? - Mário emenda o motivo de vir falar com Joana, antes que ela o enxotasse dali.

- Soraya? A loirinha do Peixoto? - Agora era a vez de Joana zombar de Mário. - Não vai me dizer que está interessado na putinha do Peixoto? - E Joana gargalhava deixando Mário desconsertado.

- Porra, Joana, pega leve. Tô tentando me acertar com a gostosa e você fica tentando me humilhar. - Mário realmente se expressava com pesar deixando transparecer sua fraqueza e queda pela loirinha.

- Tá bom, Mário, relaxa. Ela mora nesse chiqueiro aqui em cima do Center. - Joana resolve ajudar o pobre detetive apaixonado.

- Você sabe qual apartamento? - Mário agora parecia um menino falando.

- Eu acho que é o 910. - Respondeu a mulata com certa dúvida e emendou: - Cuidado, Mário, essa menina costuma andar com um pessoal da pesada. Por que você não deixa pra lá, cara e segue sua vida?

- Obrigado, Joana, mas preciso saber como ela está. É só isso. Vacilei com ela. - Confessou o detetive.

Mário dirigiu-se como uma flecha para o prédio em ruínas. Apartamento 910. O elevador estava com defeito e o detetive acima do peso teve que subir nove andares. A escada era imunda, as paredes mal tratadas, não havia ventilação na subida pelas escadas e Mário pensava que teria um enfarte. No quinto andar um jovem casal se pegava e se assustou quando viu o transpirante e sem folego detetive. Mário teve que parar para recuperar o ar e o jovem casal saiu rindo. No nono andar, Mário abriu a porta contra incêndio desesperadamente e entrou no corredor. Corria uma brisa que Mário agradeceu aos deuses. Achou o 910 e tocou a campainha. Uma velha enrugada e de sutiã e calcinha atendeu a porta.

- Bom dia, madame, posso falar com a Soraya? - Pediu educadamente o quase enfartado detetive.

- Soraya? Não, a Soraya foi embora. Ela voltou pra sua terra, ela foi pra Bahia, alguma cidade do interior baiano. - Disse a velha alternando a fala com uma tosse seca.

Mário cansado se apoiou na parede. Deixou-se escorregar até sentar-se no chão. A velha desconfiada fechou a porta e passou-lhe os trincos. Depois que o detetive recuperou o folego resolveu descer os nove andares e retomar sua vida medíocre. Pensou aliviado por ter o caso de Lady K. Pensou: “Foda-se essa baianinha de merda!”. E novamente o pensamento se dissipou rapidamente quando lembrou de Soraya nua lhe cavalgando. Lá embaixo, Mário seguiu em direção a saída dos fundos da galeria. Parou na saída e contemplava a multidão que lotava as ruas iguaçuanas. Resolveu dar um tempo para pensar. Sentou-se num murete e observava o movimento. O pensamento alternava Lady K, Soraya, Joana. Foi tirado do pensamento pela batida de uma porta de uma velha kombi azul parada a sua frente. Ouviu barulho de asas provocado pelo susto da batida da porta. Viu dois sujeitos que saíram da kombi entrando e sumindo galeria adentro. Mário chegou até a janela da kombi e viu uma porção de papagaios e araras presos em gaiolas. Lembrou do sujeito do bar da galeria. Seu coração acelerou. A adrenalina lhe deu forças e correu em direção ao bar. Quando chegou à porta do bar viu os dois sujeitos bebendo no balcão e conversando com o dono defensor das aves exóticas brasileiras. Mário, disfarçadamente, chamou o dono e lhe disse sussurrando.

- Amigo, disfarça, mas esses dois sujeitos acabaram de estacionar uma kombi nos fundos da galeria com uma porção de papagaios e araras. - Mário viu que a expressão do homem ia mudando conforme ele ia lhe revelando o crime.

- Olha, vá até a delegacia e procura o delegado Genuíno e conta pra ele, enquanto eu seguro esses bostas aqui. - Enquanto falava, o homenzarrão pegava um porrete e dava a volta do balcão. Aproximando-se dos dois traficantes, disse-lhes: - Vocês têm uma carga interessante na kombi, não?

- Sim, temos sim. O amigo tem interesse em fazer negócio? - Falou o sujeito mais magro e aparentemente o dono da mercadoria.

- Tenho não, mas tenho interesse em traficante filha da puta como você! - O gigante sacou o porrete e começou a distribuir porrada nos dois sujeitos que tentavam fugir sem êxito. O homem além de forte era super habilidoso com o tacape.

Enquanto o neanderthal do bar esfolava os traficantes, Mário descia as escadas da galeria gritando: “Traficantes! Traficantes!” apontando para o bar e outros lojistas amigo do gigante do bar também se armavam para esfolar os criminosos. Lá embaixo, Mário contou a história para as pessoas que confirmavam ao verificar a kombi. Arrombaram a porta do carro e pegaram as aves e levaram para a delegacia. Mário que não queria confusão e nem esse tipo de notoriedade, seguiu ruma a Otávio Tarquino. Enquanto caminhava deixando às suas costas a confusão aviária, ia pensando em Lady K e no transe sexual inesquecível. Dizia: - Que mulher! Que mulher! Será uma bruxa? - Colocando a mão no bolso sentiu seu velho 38, aquela confusão toda fez com que esquecesse de seu velho companheiro, pensou: "Deixa pra próxima."

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Autêntico




Autêntico é ser o que é e não o que os “dias” mandam ser. Autêntico é não temer o que dirão daquilo que você, como indivíduo, produz. Autêntico é ser você mesmo, apesar deles. Autêntico não é isolar-se de todos, mas confirmar a si mesmo no meio de todos. Autêntico é ter uma característica irremovível e não sujeita às dissimulações de grupo. Autêntico é acertar, é errar, é voltar atrás; primeiramente, não por causa do outro, mas para ser honesto consigo mesmo. Autêntico é utilizar as próprias palavras que são lhe sopradas de dentro e não de bocas estrangeiras. Autêntico é interpretar o outro e criar uma linguagem somente sua e assim multiplicar-se em infinitos novos outros. Autêntico é como vento e não como pedra. Vento é liberdade. Pedra é medo, mesmice, pesada. Autêntico é ser corajoso, pois tudo está sendo criado pela primeira vez. Cada ato é um logos. Autêntico é amar a imprevisibilidade. Não ter segurança. Não ter retorno certo. É arriscar sempre, tendo somente como garantia si-mesmo

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nova Iguaçu, pulp! - TRÊS




Mário viu a luz do banheiro acesa. Levantou-se devagar com receio de acordar Soraya. Foi até a gaveta e pegou seu 38. Abriu a porta do banheiro e viu Lady K completamente nua. Ele ficou maravilhado com o corpo da mulher. Ela se virou e deu-lhe um sorriso sedutor. Ele tentava se mexer, mas alguma coisa o impedia. Ele via os lábios da mulher se mexerem, mas não ouvia nenhuma palavra. Fechou os olhos e quando abriu se viu em meio à escuridão. Pensou que enquanto fechara os olhos a gostosa apagara a luz e saíra. Impossível. Começou a ouvir batidas leves na porta do escritório, as batidas aumentavam. Ouviu a voz de Osvaldo. Pensou: “O que esse porra quer agora?” Levantou do sofá-cama num salto com o olhar surpreso de Soraya.

- Você estava tendo um pesadelo, querido. - Disse num sussurro Soraya.

- Ora, por que você não me acordou, mulher? - Disse com raiva o detetive.

- Mas dizem que faz mal acordar pessoas durante um pesadelo… - Justificou-se a moça.

Agora esmurravam a porta. Mário virou-se para a porta e viu duas silhuetas. Uma era a de Lady K e a outra da anta do Osvaldo. Mário pensou: “Hoje arrebento com esse zelador de merda e depois como a bunda dessa Lady K.”

- Soraya, querida, abra a porta e peça para a senhora sentar e me aguardar e manda o homenzinho que está com ela para a puta que o pariu. - Pediu o detetive.

- Então, estou contratada? - Perguntou a sorridente Soraya.

- Contratada? Ah, sim, que seja. Vou ao banheiro e em cinco minutos estou de volta. Outra coisa faça um café. - Ordenou o chefe à nova secretaria.

- Sim, senhor. - Respondeu a moça prestando continência.

Mário entrou no banheiro e bateu a porta atrás de si. Soraya atendeu a porta e viu Osvaldo suado pelo esforço e Lady K, linda e perfumada.

- Bom dia, seja bem vinda. Desculpa a demora, doutor Mário já atenderá a senhora. - Disse a secretária tentando não errar na educação e nem na linguagem.

- Tá. - Respondeu Lady K com certa indiferença.

- Doutor Mário? Quem é esse? Inquilino novo? - Perguntou ironicamente Osvaldo.

- O senhor pode se retirar e continuar seu trabalho lá fora e não incomode o doutor Mário. - Respondeu ameaçadoramente Soraya. Osvaldo saiu xingando.

Soraya tentava improvisar um café. Acomodou Lady K no sofá-cama, onde há poucos, ela e Mário treparam. Lady K tirou um Lucky Strike e começou a fumar. Mário sentiu o cheiro do tabaco torrado e ficou excitado. As palavras de Lady K retornavam a sua mente: “Você mata?”. Certamente por muitos anos ainda aquele cheiro ficaria ligado a esta pergunta em seu ser.

- Olá, senhora, como passou a noite? - Mário saiu do banheiro cumprimentando a mulher.

- Ok. Vamos tratar de nosso negócio, Mário? - Disse a objetiva madame.

- Sim, com certeza. - Concordou, Mário.

- Quem é essa? - Lady K falava sem olhar para Soraya.

- Ah, desculpe-me, essa é minha nova secretária, Soraya. - Disse Mário sorrindo tentando provocar um clima amistoso.

- Não quero ela aqui. Todas as vezes que eu estiver aqui para tratar de nosso negócio não quero essa mulher aqui, estamos entendidos? - Os olhos de K fuzilavam os de Mário.

- Ok, mas Soraya é de confiança. Mas não tem problema, ela vai esperar lá fora. Ok, querida? Lá fora. - Mário falava olhando para Soraya e com a cabeça fazia-lhe sinal para que saísse. Soraya irritada fuzila K e sai do escritório batendo a porta. Mário levanta-se, chega à janela e vê Soraya atravessando a rua e sumindo no calçadão de Nova Iguaçu já inundado de zumbis do dia-a-dia. Mário retorna à mesa e senta-se diante da estonteante K.

- Assim está melhor. - Disse K enquanto soprava a cheirosa fumaça de seu Lucky Strike.

- Está com calor, quer que eu ligue o ar? - Disse Mário já se levantando para ligar um velho condicionador de ar que dificilmente funcionaria.

- Está um calor infernal, mas pode deixar, esse lixo não deve funcionar. - Respondeu a madame com desprezo.

- Ok, você que manda, chefia. - Mário retorna à mesa e fita K, esperando que ela comece. A bela mulher dá a última tragada no tabaco e sopra a fumaça no rosto de Mário. Ele fecha os olhos e entra em transe. Se sente leve e começa a flutuar. Duas mulheres nuas começam a beijá-lo. Depois elas o jogam sobre a mesa e começam a despi-lo. Uma delas começa a cavalgar-lhe e a outra continua beijando-lhe. Mário sente o coração disparar, fica alucinado com a morena linda que lhe cavalga e a loira com hálito de tabaco torrado chupando sua língua. A morena que cavalga parece lhe dizer: “Está gostoso, doutor Mário?” - Soraya? - Mário sai do transe e não avista K, ela não estava mais a sua frente. Levanta assustado e quando vira em direção à janela, vê a bela senhora em pé, de costas, chorando. Um choro baixinho, sentido, choro de dama machucada. Mário tenta relaxar, olha para seu pau e vê que ainda está com ereção. Senta-se e espera. Quando, enfim, se acalma vai até a dama e a consola: - Por que o choro? Vou te ajudar, Lady, confia em mim. Não há caso que eu não consiga resolver.

- O que houve? - Perguntou K sobre o desmaio de Mário.

- Nada, tenho essas coisas desde menino, mas nada que se deva preocupar. É como um reset, entende? - Explicou Mário. - Agora me diz o que está acontecendo, vamos tratar desse problema. - Mário decide enfim saber o que angustia aquela deusa.

- A coisa é simples. Preciso de liberdade. Casei com um milionário. Ele é trinta anos mais velho que eu. Já estamos casados há cinco anos. Nesse tempo todo fui fiel, pode acreditar. Mas cansei, quero ser livre, namorar homens de minha idade, entende? Falei com ele que queria me separar amigavelmente, bastava ele me dar o mínimo para viver decentemente e pronto: liberdade. Não queria ser milionária, mas apenas rica. Poder viajar, comprar um bom carro, um bom apartamento. Mas ele não aceitou e disse que se eu o abandonasse eu deveria sair sem nada. Mas depois de cinco anos a gente se acostuma com a vida boa, sabe? Não quero ter a vida que meus pais tiveram. Não sei ser pobre. Insisti com ele, implorei, me humilhei e nada. Ele tem duas filhas, elas me entenderam e tentaram convencê-lo e nada. Meus dias são tristes, meus pais já morreram, não tenho irmãos e nem amigos. Vivo numa mansão sozinha. Já tentei me matar, mas a minha esperança ainda não me abandonou por completo. Li seu anúncio num jornal e vi que ficava nesse fim de mundo. Pensei que você vinha a calhar. Misturei-me às pessoas há um mês e vi a sua situação caótica, você era o detetive perfeito para mim, para meu plano. Fim de mundo, detetive desmotivado, situação financeira desesperadora. Desculpe-me a sinceridade, mas o desespero nos enche de ousadia. Mário, preciso de você para alcançar minha liberdade, você tem que me libertar. Estou disposta a te fazer um sujeito rico, muito rico!

Mário estava chocado. Nunca sofrera aquele fuzilamento de sinceridade e de insulto. Uma jovem e bela mulher descarregava toda sua angústia sobre ele. Pela primeira vez, Mário sentiu que K era realmente humana, sua voz era real, suas mazelas eram palpáveis. Sentiu ódio e vontade de pular sobre a mulher e encher-lhe de porrada. Contudo, quando sentia seu cheiro mudava de opinião. Entendia que tinha diante de si uma espécie rara de fêmea. Ela toda era o mundo. Ele a desejou desde a primeira vez que a viu. Seu corpo era perfeito e apetitoso. E também tinha a coisa do dinheiro. Mário amava as mulheres e sabia que o caminho mais rápido entre um homem e uma mulher era o dinheiro. E essa regra é diretamente proporcional, ou seja, mais dinheiro, mais mulheres. As últimas palavras de K revelavam que Mário de certa forma tinha a madame em suas mãos. Então Mário resolveu engolir o orgulho e aproveitar a oportunidade, pois como dizia William: a oportunidade tem cabelos na frente e é careca atrás, não a deixe escapar, pois não conseguirá mais agarrá-la.

- Madame K, não fique assim, tente se acalmar. Conte-me o seu plano e iremos juntos tomar uma decisão perfeita. - Mário acolhia a dama em seus braços e ela não resistia. Ele a levou até o sofá-cama, trouxe um café e esperou que ela falasse.

- Obrigada, Mário. Olha, você terá que matá-lo. Lembra quando lhe perguntei se matava? É isso, preciso que você simule algum acidente. Eu já pensei em suicídio, digo, o suicídio dele. Eu poderia envenená-lo, mas eu sei que a polícia adora desvendar casos milionários, então fiquei com medo. Eu quero sair ilesa, entende? - K falava aos soluços e com a cabeça recostada no sofá-cama. Mário olhando aquela mulher vulnerável tinha que se esforçar muito para não tentar possuí-la ali mesmo.

- Madame, olha. Evite de falar sobre isso, sabe? Que deseja matá-lo, ok? Eu já entendi seu desejo, mas vamos tratar disso como o “problema”, entende? Esse prédio velho é cheio de fantasmas. - Mário falava olhando para a porta do escritório.

- Sim, entendo, desculpe-me. - K agora se sentava e tentava limpar as lágrimas com um lenço.

- Escute. Quero que você vá para casa e me mande por e-mail tudo que você puder me mandar de seu milionário, tá? Nome, idade, passatempos, propriedades, etc., tudo mesmo, entendeu? - Mário sabia que aquele dia não conseguiria mais nada dela. Ela estava exausta, emocionalmente exausta e o melhor era ela ir para casa e depois com calma fornecer todos os dados sobre o defunto.

- Está bem, Mário. - Capitulou a bela.

- Mais uma coisa, madame, poderia adiantar mais uma grana… - K virou-se para o detetive com um olhar inquisidor. Era outra pessoa.

- Como? Como ousa me pedir mais dinheiro depois de tudo que lhe dei hoje? Uma morena que cavalgava em você e eu a lhe chupar a língua! Como ousa? - K pegou a bolsa, virou-se e saiu batendo a porta quase quebrando a parte de vidro com o número 13. Mário engoliu a seco o espírito e com os olhos arregalados olhava para o nada.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Square




Um grande square.

Não há portas. Não há janelas.

Vê-se o teto, pintado de branco, mas a tinta de baixa qualidade já revela manchas do reboco primário.

Sabe-se das paredes pelos seus prolongamentos acima das cabeças de pessoas que postam-se como grupos definidos.

Ouve-se ideais antigos e ultrapassados da parede da direita. Sente-se o totalitarismo da parede da esquerda. Flerta-se com ambas as paredes os grupos que perfilam a frente da parede sul. Festeja-se lendas os grupos diversos que ocuparam a parede norte. No centro do square, mistura-se otimistas covardes e pessimistas corajosos.

Batalha-se pelo centro, para que ele chegue-se mais para a esquerda ou mais para a direita.

Os da parede norte apelam para os céus, para cristo, para os orixás, para nossa senhora, para rezas, orações e trabalhos; apela-se à rainha do mar e do céu. Os da parede sul são inconstantes e medrosos, pois têm muito a perder. Sufoca-se o centro para que fortaleça um ou outro lado. Igualam-se a parede esquerda e direita em crer no domínio da verdade.

O square frequentemente é quente e palco de grandes violências.

Isola-se de todos aqueles que tentam uma saída do square. Não são um grupo, mas independentes. Os totalitários da parede esquerda e direita os acusam de indiferentes. Rasteja-se pela parede direita, mas homens e mulheres fundamentalistas os denunciam. Rasteja-se pela parede esquerda, mas homens e mulheres com machado e foice nas mãos os ameaçam. Dirige-se para a parede sul e lá não tem saída, apenas uma parede alta e sólida. Dirige-se para a parede norte e lá são bombardeados com cruzes, mandingas, maldições, catequismos, regras, bulas, línguas estranhas, etc.

Volta-se ao centro. Desanimado. O teto não releva-se mais céu, mas o concreto repetitivo e rude do reboco primário cada vez mais amostra. Suicida-se. Adoece-se. Desespera-se. Capitula-se.

[Soube certa vez que alguém do centro se infiltrou à esquerda. E vestiu-se de personagem perfeito realizando a mímesis mais inquestionável. Chegou a situação privilegiada e encontrou uma abertura. Foi-se.]

[Soube de um outro do centro que optou à direita. Infiltrou-se. Vestiu-se de ortodoxo. Usando o Livro abriu aquele mar de gente e como um ladrão que espera o cochilo de quem vigia, libertou-se]


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nova Iguaçu, pulp! - DOIS



arte de Aliove Design


DOIS


Mário dormiu no sofá da sala 13 do primeiro andar do prédio 166 da Otávio Tarquino. Acordou com o barulho de passos femininos pesados, pensou que seria Rosa indo embora. Deu um salto do sofá e olhando para a janela viu o céu escurecido da noite iguaçuana. Foi ao banheiro e lavou o rosto. Escovou os dentes. Verificou se havia alguma mensagem no celular, nenhuma. Desconfiou que a visita de Lady K teria sido um sonho, mas quando abriu a segunda gaveta de sua mesa viu que o maço de notas de cem reais estava lá. Aquilo reformou seu humor da mesma forma que Lutero reformou a Igreja: a casa continuava velha, mas as ideias eram novas e amplas.

Acendeu um cigarro e ficou na janela olhando o movimento na rua. Os sem-teto começavam a aparecer e se acomodavam embaixo das marquises dos estabelecimentos comerciais já fechados. A marquise da agência dos Correios era disputada, mas um grandão com suas duas mulheres decidia quem ficaria ali. Dois jovens o ameaçavam, mas o gigante das ruas sacou uma faca e enfiou no lado de um e nas costas do outro que saíram em disparada gritando de dor. O rastro de sangue dividia a rua indicando o ocidente e o oriente. Os dois jovens ensanguentados viraram à esquerda na Marechal Floriano e conseguiram correr até a Praça da Liberdade e ali caíram cansados e mortos. O grandão da Otávio Tarquino costumava antecipar o trabalho dos traficantes e da polícia. Os dois corpos ficariam ali à espera do recolhimento e serviriam de exemplos para os transeuntes, para parábolas do pastor que berrava na Praça amedrontando as multidões e para outras necessidades políticas e religiosas do caótico Estado do Rio de Janeiro.

Mário era indiferente às mazelas das ruas. Ele tinha muitos problemas pessoais para resolver e não tinha tempo para os diversos problemas da cidade. Estava com um belo maço de notas de cem reais, dado por uma bela mulher que certamente o contrataria para um caso bastante complexo. Na altura dessa lembrança lembrou que disse que matava. Mas como poderia dizer que não? Encontrava-se numa situação financeira caótica e não podia se dar ao luxo de ser ético. Chegou a dizer para si mesmo: “Foda-se a ética! País de merda! País de imorais! Sou apenas mais um!”. Pensou em comprar um presente para Samuel, antecipar o pagamento da pensão, dar umas gorjetas para Osvaldo, pagar a conta de luz atrasada e retirar o gato feito por Edmílson. Verificava a quantia real do maço e percebia que não era suficiente para aliviar as dívidas reais da existência, então decidiu aliviar as dívidas espirituais, ou seja, resolveu pegar uma mulher. Não gostava da rua da Lama, pois não suportava ser previsível. Gostava de coisas mais reais, mais compatíveis com a alma humana, ou seja, a lama real e não dissimulada dos bares undergrounds de Nova Iguaçu, onde se bebia vodka e comia mulheres. Não é à toa que em português brasileiro, alma e lama são construídas com as mesmas letras. A diferença estética é apenas o l se movimentando entre o amor. Em alma ele se posiciona no meio da cama como a censurar atos libidinosos da alcova e em lama ele se serve de cabeceira para esses atos. Mário, naquela terça-feira noturna e quente era mais lama que alma. E o dinheiro sempre favorece mais a lama. Mário trancou a sala, saiu do prédio e dirigiu-se ao Peixoto. O bar do Peixoto fica na rua Dom Walmor, perto da Prefeitura e do Cemitério. Mário resolveu limpar seu nome com o Peixoto, beber alguma coisa forte e pegar mulher. Precisava disso, pois amanhã seria um dia duro com a gostosa K. A bebida e as mulheres poderiam dar-lhe um pouco de sossego e prazer para enfrentar a realidade da quarta-feira.

O bar estava vazio. Chegou até o balcão e perguntou pelo Peixoto.

- Onde está aquele velho safado? Está comendo alguma puta lá atrás? - Disse alto para que Peixoto pudesse ouvir e reconhecer a sua voz. Sabia que se o velho estivesse mesmo com a puta mais desejada a largaria para enchê-lo de porrada e recuperar seus cem mangos. Peixoto não estava com nenhuma puta, tirava um cochilo na cadeira de uma sala nos fundos do bar e quando ouviu a voz de Mário deu um pulo e saltou no bar adentro com um porrete na mão.

- Ah, seu filho de uma puta, hoje você me paga! - Gritou o velho nórdico como se seus antepassados vikings reencarnassem todos nele.

Mário deu um passo atrás e jogou sobre o balcão duas notas de cem e disse:

- Calma, seu porra! Taí sua grana e os juros! - Gritou Mário e gargalhando.

- Nada disso, seu merda, bote mais cinquenta reais nessa porra senão te encho de porrada, seu bosta! - Ameaçou o gigante branco vermelho por causa da adrenalina.

- Não tenho notas de cinquenta, seu velho brocha! Então tome mais cem e agora quem me deve é você, seu merda, comedor de chucrute! - Revidou o detetive da Otávio Tarquino.

Aquele prólogo funcionava como uma verdadeira catarse para Mário. A relação com Peixoto sempre fora tensa. Mas como sempre somos atraídos pelo perigo, pela nossa antítese, Mário sempre voltava àquela pocilga de álcool e sexo. O bar do Peixoto não era dissimulado frequentado por personagens falsas da sociedade iguaçuana, mas era real, a frequência era de carnes e ossos verdadeiros. A linguagem não era rebuscada, culta, educada; mas se dizia o que se pensava e da maneira que quisesse. O bar do Peixoto seria uma bela oficina para linguistas curiosos. Mário costumava dizer que jamais se deparara com um demônio ou um anjo naquele recinto, só o frequentava seres humanos. Acreditava que anjos e demônios estavam ocupados em abrir os olhos dos ingênuos que lotavam igrejas. Ali, entre álcool e sexo, todos eram santos e estavam salvos do mundo irreal e dissimulado dos homens de bem e dos tolos.

Mário se afastou do beligerante Peixoto e com uma garrafa de vodka sentou-se numa mesa escurecida pelo canto distante da luz. Perto da jukebox velha havia uma silhueta feminina que não conhecia. Ela olhava atenta para a tela da máquina a perscrutar suas canções, sorriu e apertou os botões. Em seguida começou a tocar Wish you were here. Ela se virou e começou a dançar consigo mesma. Os olhos fechados e como uma serpente seduzia os machos ao acasalamento. Mário pensou: “A puta tem bom gosto!”. Mário sorriu para ela e a convidou para se juntar a ele. Ela veio.

- Olá, qual o seu nome? - Perguntou o detetive.
- Soraya. - Respondeu a mulher.
- Assim mesmo, com ípsilon? - Interrogou o astuto investigador.

Soraya deu um sorriso e disse:

- Você é o detetive, não? - E sem deixar Mário responder, emendou: - O Igor sempre fala de você.
- E ele fala bem ou mal, esse porco velho? - Ironizou Mário.
- Nem bem, nem mal, ele apenas fala. - Mário percebeu que a mulher tinha dignidade, pois sabia usar as palavras adequadas para aquele templo. Ela tinha bom gosto musical e coerência ao utilizar uma jukebox velha.
- Não tem como ser tão indiferente! - Mário insistiu com a conversa e quis pegar a dama da jukebox em contradição.
- Sim, tem sim. Ele fala sem julgar. - Naquele momento Mário percebeu que precisava ter aquela mulher para sempre. Não queria saber seu passado, mas aquelas poucas palavras revelavam a grandeza de seu espírito que vagava perdido pelas ruas de Nova Iguaçu, por camas diversas e sendo penetrada por homens que não mereciam sua dignidade. Mário ficou sinceramente triste e puxou a dama para junto de si e ela não o resistiu. Ele colocou sua cabeça em seu ombro e pode sentir o cheiro gostoso da mulher. Parecia não usar perfume, era seu cheiro natural, angelical, demonicamente angelical.

- Eu preciso de emprego. Eu preciso de dinheiro e proteção. - Disse com uma voz tão infantil que Mário ficou todo comovido. O álcool prepara os homens para as bem-aventuranças.
- Preciso de uma secretária, mas não posso pagar bem. - Propôs o detetive.
- Eu topo. Preciso me livrar de um cara. - Respondeu de imediato a boneca da jukebox.
- Um tarado? Um marido? Um gigolô? - Ofereceu algumas alternativas o ansioso embriagado Mário.
- Não, meu pai. - Respondeu com certa dor a mulher.
- A gente vê isso, boneca. - Emendou Mário com a intenção de encerrar a conversa e concluir o ciclo álccol-e-sexo noturno.

Mário levou Soraya para a Otávio Tarquino, número 166, sala 13. Abriu a sala, a moça entrou e Mário trancou a porta. Mário preparou o sofá-cama, forrou com um velho lençol, acessou o streaming e procurou Pink Floyd. Apertou o play em Wish you were here. Quando a música começou a tocar, Soraya novamente começou balançar seu belo corpo. Aquela música era a chave de sua alma. Música que a resgatava da lama. Mário dançava com ela e começo a despi-la. Ela não resistia e continuava dançando de olhos fechados. Agora os dois estavam nus e Mário trazia Soraya para o sofá-cama. Amaram-se. Após o coito, Mário acendeu um cigarro e olhava distante para o céu escuro da noite suja da Baixada Fluminense. Soraya recostava sua cabeça no peito do detetive e disse-lhe: - Somos duas almas perdidas. Dormiram.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Tornar-se pequeno




É preciso que os grandes se apequenem
pois assim se tornarão interessantes à aproximação
porque a curiosidade provoca o conhecimento
e sendo grandes, bem visíveis, acabam caindo na mesmice,
na indiferença das gentes, no tédio que teima governar a pós-modernidade.

Somente com a pequenez dos grandes acontecerá a grandeza dos pequenos
e assim todos verão que aquilo que parecia grande era pequeno, sem importância,
até mesmo desprezível e aquilo que era pequeno era tudo que importava.

Somente apequenando a grande literatura fará com que as multidões se acheguem a ela,
pois se manter distante já não é mais possível a sua visualização. De maneira contrária
acontecerá com o engrandecimento da pequena literatura, pois, talvez, as multidões
perceberão o tempo que desperdiçaram com o que não tinha valor.

[sabe, não sei, talvez por isso deus se apequenou em Jesus para que as multidões a ele
se aproximassem. talvez.]

terça-feira, 9 de maio de 2017

Nova Iguaçu, pulp! - UM



UM


Mário já estava sem serviço há três semanas. Tinha que pagar o aluguel da sala que ocupava como escritório, na rua Otávio Tarquino, número 166, em Nova Iguaçu. Tinha que pagar a pensão alimentícia, coisa que não reclamava, pois eram trezentos e sessenta reais para viver livre. Dinheiro muito bem pago para se livrar de um péssimo casamento com a infiel Maria do Socorro e não ter a obrigação de educar o pequeno Samuel, pois tudo indicava que o moleque seguiria o caminho tortuoso da vagabundagem carioca. A eletricidade já tinha sido cortada pela famigerada Light, mas que já resolvera essa pequena pane com seu amigo Edmílson, um sujeito que trabalha numa empresa de instalação elétrica terceirizada.

Mário é detetive particular. Cuida de tudo. Até pouco tempo tinha um ajudante, mas a crise econômica do país e o caos financeiro do estado do Rio de Janeiro fez com que ele o demitisse. Sem mulher, sem filho e sem ajudante. Poderia se empenhar mais nos casos, mas os casos sumiram. O último caso que pegou seria enfiar na cadeia um pastor ladrão e tarado. Coisa que não conseguiu, pois o pastor acabou mexendo com a “irmã” errada, mulher de um policial lá das bandas de Cabuçu. Apareceu morto em cima do púlpito e com as calças arriadas. Fim de caso, nada de grana.

Mário trazia consigo o otimismo que herdara dos Alves, família paterna. Ele sabia que a qualquer momento cairia em seu colo um caso, quem sabe até um grande caso que lhe daria uma certa estabilidade financeira. Contudo, Mário também herdara o pessimismo dos Gonzagas, família materna. Pessimismo que sempre ficava ali, à espreita, quando os casos demoravam a aparecer, quando as contas começavam a chegar.

O prédio que Mário tinha sua sala, era um três andares dos anos 60. Quatro salas por andar. O primeiro andar, o andar de Mário, sala 13, era um verdadeiro deserto. A única sala em funcionamento era a dele. O prédio não tinha elevador, coisa que o primeiro andar lhe dava certa compensação. O prédio pertencia à Diocese de Nova Iguaçu e por ser muito velho sofria a indiferença dos padres. Mário sabia que a qualquer momento a Diocese poderia negociar o prédio e ele estaria na rua. Um caso era necessário, muito necessário. Certa vez, passou-se por carola e foi confessar-se na Catedral de Santo Antônio com o intuito de investigar os interesses do clero iguaçuano sobre o velho prédio da Otávio Tarquino. Não conseguiu muita coisa, mas no final da investigação suspeitou que a Igreja desconhecia a propriedade. Nesse caso, a riqueza apostólica o favorecia, pois sendo proprietária de tantos prédios, os mais arcaicos e ultrapassados acabavam ficando no esquecimento. E Mário precisava agir antes que o clero recobrasse sua memória.

Osvaldo era o zelador do prédio. Não era um funcionário legalizado, mas costumava dar uma varrida na entrada todas as manhãs em troca de algumas gorjetas dos três ocupantes do prédio. Mário dava-lhe dez reais por semana. Edgar, o chaveiro, pagava-lhe o café. Dona Rosa, do brechó, dava-lhe algumas roupas velhas.

Naquela terça-feira, Osvaldo entrou na sala do detetive com a respiração ofegante e puxando Mário até a janela.

- Mário, vem aqui na janela e olha que tesão de mulher que parou o carro em frente do prédio! - Dizia apertando o pulso do detetive que por impulso se levantou por causa do “tesão de mulher” e empurrando o zelador por causa do “apertando o pulso”.

- Porra, Osvaldo, não precisa apertar! Saí pra lá, deixa eu ver! - Gritou ofensivamente Mário, jogando-lhe um olhar de raiva.

- Ah, você demorou… Ela saiu. Olha, é aquele carrão ali. - Completou o zelador desanimado.

Quando Mário retornava para a mesa de trabalho via na porta uma silhueta feminina. Ele puxou Osvaldo que ainda procurava a mulher da janela e disse:

- Sua anta, abre a porta e suma! - Ordenou o detetive.

Coisa que o zelador fez automaticamente.

- Bom dia. O senhor é o detetive?

A mulher tinha um metro e setenta. Cabelos negros longos. Pele clara. Pernas longas, mas proporcionais à estrutura do corpo. Lábios grossos. Cheirava algum perfume original importado. Olhos castanhos. Bunda apetitosa. Seios fartos. Uma visão! Mário sempre ficava surpreso com o Rio de Janeiro, pois em cada lugar, independente do bairro, pululam as beldades.

- Não, ele é apenas o zelador e já tava de saída. - Antecipou Mário e cochichando ao ouvido do zelador, disse: - Suma daqui, sua desgraça! - Osvaldo riu e sumiu escada abaixo.

Mário, após se livrar de Osvaldo, convidou a bela mulher a entrar, puxou sua melhor cadeira e emendou: - Seja bem-vinda, senhora ou senhorita…? - Pergunta que foi fuzilada pelos belos olhos castanhos da beldade branca insinuando que preferia o anonimato.

- Óquei, sem problema, podemos manter a discrição. - Disse cuidadosamente com medo de perder uma grande possibilidade de sair do buraco financeiro que se encontrava.

- Sim, assim é melhor. Bem, me chame de Lady K. - Sugeriu a mulher.

- Sim, sem problema. K é sempre bom, né? Tem Kafka e Dostoiévski, não? - Mário tentou passar um ar de homem culto que naquela pocilga certamente não teria quase nenhum efeito. E emendou em seguida: - Aceita alguma bebida?

Depois de fazer a pergunta torceu para que a gostosa apenas negasse educadamente ou pedisse um cafezinho. Nem um nem outro, ela ignorou. Talvez por que soubesse que ele não teria nada digno de se beber. A mulher ficou em silêncio olhando para o detetive. Olhar que o penetrava como uma máquina de raios x e perscrutava cada parte de seu organismo. Mário tentou imaginar o que a mulher estava pensando. Talvez o avaliasse fisicamente e seria uma decepção. Talvez ela teria a ideia de detetives de Hollywood, mas aquele da Baixada Fluminense estava longe de colocar um sorriso numa bela mulher. Aquele sujeito de cor parda, cabelos crespos, barba por fazer, barrigudo, baixinho. Nada, nada mesmo que pudesse servir de atração ao sexo oposto, nem mesmo os veados se sentiriam atraídos. O silêncio da mulher começava deixar Mário incomodado. E quando ameaçou quebrar o silêncio, a mulher o antecipou: - Posso fumar?

- Sim, Lady K., a vontade. - Respondeu Mário com um sorriso no rosto orgulhoso por ostentar tamanha ousadia em permitir alguém fumar em pleno século vinte-e-um num ambiente fechado. O orgulho foi se desfazendo junto com o sorriso quando percebeu que a mulher não pedira permissão, pois antes mesmo dele responder a pergunta, ela já havia sacado seu Lucky Strike e tragava profundamente o tabaco torrado.

- Você mata? - Fuzilou a beldade K. A pergunta ecoava na sala 13 do primeiro andar do velho prédio da Otávio Tarquino junto com a bela fumaça produzida pelo Lucky Strike.

- Matar? Olha, talvez não seja a melhor decisão, não? - Respondeu o assustado detetive. Resposta que deixava certa dúvida, dúvida providencial de pessoa desesperada que teme perder uma oportunidade única na vida. Contudo, Mário nunca matara e nem encomendara a morte de ninguém.

- Então, talvez você não seja a pessoa certa. - Concluiu a bela K com a voz mais sedutora possível. Voz que arrombou o seu ouvido, ignorando toda a sequência do funcionamento da audição e alcançando o coração do detetive que agora se acelerava em êxtase.

- Não, calma, querida! - A voz de Mário denunciava sua ansiedade e submissão àquela mulher linda e cruel. Agora o cheiro de tabaco torrado inundava todo o andar. - Conte-me a história! - Disse Mário quase gritando.

- Não tem história ainda. Apenas uma pergunta que preciso que você responda de imediato. Não posso perder tempo. Dependendo de sua resposta, dou-lhe a história. - Mário a ouvia atordoado. O “dou-lhe” chegou aos seus ouvidos como um convite sexual. Aquela mulher, aquele corpo, aquela voz, aquele tabaco, eram todos, escrituras sagradas; como se o próprio deus se manifestasse a ele e como um Abraão do século vinte-e-um recebesse a ordem divina de matar.

- Sim, eu mato! - Enfim, convencido por deus, Mário aceita a missão divina. - Sim, eu mato! - Precisou falar duas vezes para ter certeza que ela o ouvira. Lady K levantou-se, foi até a janela. Olhou por um tempo o movimento na rua. Depois voltou, sentou-se novamente e disse: - Muito bom, Mário, muito bom! Amanhã, nesse mesmo horário estarei aqui com a história. - Antes de sair ela pegou sua carteira Victor Hugo e jogou sobre a mesa um pequeno maço de notas de cem reais e disse: - Pelo seu tempo. - K levantou-se e saiu enquanto Mário, ainda atordoado, acompanhava o balanço do corpo da bela mulher. Repetindo para si mesmo, dizia o detetive: - Amanhã, a história, nesse mesmo horário...

A primeira edição

          Assim se deu o diálogo entre dois velhos amigos: - É apenas um livro. - Não, não é apenas um livro, mas a primeira e...