arte de Aliove Design
DOIS
Mário
dormiu no sofá da sala 13 do primeiro andar do prédio 166 da Otávio
Tarquino. Acordou com o barulho de passos femininos pesados, pensou
que seria Rosa indo embora. Deu um salto do sofá e olhando para a
janela viu o céu escurecido da noite iguaçuana. Foi ao banheiro e
lavou o rosto. Escovou os dentes. Verificou se havia alguma mensagem
no celular, nenhuma. Desconfiou que a visita de Lady K teria sido um
sonho, mas quando abriu a segunda gaveta de sua mesa viu que o maço
de notas de cem reais estava lá. Aquilo reformou seu humor da mesma
forma que Lutero reformou a Igreja: a casa continuava velha, mas as
ideias eram novas e amplas.
Acendeu
um cigarro e ficou na janela olhando o movimento na rua. Os sem-teto
começavam a aparecer e se acomodavam embaixo das marquises dos
estabelecimentos comerciais já fechados. A marquise da agência dos
Correios era disputada, mas um grandão com suas duas mulheres
decidia quem ficaria ali. Dois jovens o ameaçavam, mas o gigante das
ruas sacou uma faca e enfiou no lado de um e nas costas do outro que
saíram em disparada gritando de dor. O rastro de sangue dividia a
rua indicando o ocidente e o oriente. Os dois jovens ensanguentados
viraram à esquerda na Marechal Floriano e conseguiram correr até a
Praça da Liberdade e ali caíram cansados e mortos. O grandão da
Otávio Tarquino costumava antecipar o trabalho dos traficantes e da
polícia. Os dois corpos ficariam ali à espera do recolhimento e
serviriam de exemplos para os transeuntes, para parábolas do pastor
que berrava na Praça amedrontando as multidões e para outras
necessidades políticas e religiosas do caótico Estado do Rio de
Janeiro.
Mário
era indiferente às mazelas das ruas. Ele tinha muitos problemas
pessoais para resolver e não tinha tempo para os diversos problemas
da cidade. Estava com um belo maço de notas de cem reais, dado por
uma bela mulher que certamente o contrataria para um caso bastante
complexo. Na altura dessa lembrança lembrou que disse que matava.
Mas como poderia dizer que não? Encontrava-se numa situação
financeira caótica e não podia se dar ao luxo de ser ético. Chegou
a dizer para si mesmo: “Foda-se a ética! País de merda! País de
imorais! Sou apenas mais um!”. Pensou em comprar um presente para
Samuel, antecipar o pagamento da pensão, dar umas gorjetas para
Osvaldo, pagar a conta de luz atrasada e retirar o gato feito
por Edmílson. Verificava a quantia real do maço e percebia que não
era suficiente para aliviar as dívidas reais da existência, então
decidiu aliviar as dívidas espirituais, ou seja, resolveu pegar uma
mulher. Não gostava da rua da Lama, pois não suportava ser
previsível. Gostava de coisas mais reais, mais compatíveis com a
alma humana, ou seja, a lama real e não dissimulada dos bares
undergrounds de Nova Iguaçu, onde se bebia vodka e comia
mulheres. Não é à toa que em português brasileiro, alma e lama
são construídas com as mesmas letras. A diferença estética é
apenas o l se movimentando
entre o amor. Em alma
ele se posiciona no meio da cama como a censurar atos libidinosos da
alcova e em lama ele se serve de cabeceira para esses
atos. Mário, naquela terça-feira noturna e quente era mais lama que
alma. E o dinheiro sempre favorece mais a lama. Mário trancou a
sala, saiu do prédio e dirigiu-se ao Peixoto. O bar do Peixoto fica
na rua Dom Walmor, perto da Prefeitura e do Cemitério. Mário
resolveu limpar seu nome com o Peixoto, beber alguma coisa forte e
pegar mulher. Precisava disso, pois amanhã seria um dia duro com a
gostosa K. A bebida e as mulheres poderiam dar-lhe um pouco de
sossego e prazer para enfrentar a realidade da quarta-feira.
O
bar estava vazio. Chegou até o balcão e perguntou pelo Peixoto.
-
Onde está aquele velho safado? Está comendo alguma puta lá atrás?
- Disse alto para que Peixoto pudesse ouvir e reconhecer a sua voz.
Sabia que se o velho estivesse mesmo com a puta mais desejada a
largaria para enchê-lo de porrada e recuperar seus cem mangos.
Peixoto não estava com nenhuma puta, tirava um cochilo na cadeira de
uma sala nos fundos do bar e quando ouviu a voz de Mário deu um pulo
e saltou no bar adentro com um porrete na mão.
-
Ah, seu filho de uma puta, hoje você me paga! - Gritou o velho
nórdico como se seus antepassados vikings reencarnassem todos nele.
Mário
deu um passo atrás e jogou sobre o balcão duas notas de cem e
disse:
-
Calma, seu porra! Taí sua grana e os juros! - Gritou Mário e
gargalhando.
-
Nada disso, seu merda, bote mais cinquenta reais nessa porra senão
te encho de porrada, seu bosta! - Ameaçou o gigante branco vermelho
por causa da adrenalina.
-
Não tenho notas de cinquenta, seu velho brocha! Então tome mais cem
e agora quem me deve é você, seu merda, comedor de chucrute! -
Revidou o detetive da Otávio Tarquino.
Aquele
prólogo funcionava como uma verdadeira catarse para Mário. A
relação com Peixoto sempre fora tensa. Mas como sempre somos
atraídos pelo perigo, pela nossa antítese, Mário sempre voltava
àquela pocilga de álcool e sexo. O bar do Peixoto não era
dissimulado frequentado por personagens falsas da sociedade
iguaçuana, mas era real, a frequência era de carnes e ossos
verdadeiros. A linguagem não era rebuscada, culta, educada; mas se
dizia o que se pensava e da maneira que quisesse. O bar do Peixoto
seria uma bela oficina para linguistas curiosos. Mário costumava
dizer que jamais se deparara com um demônio ou um anjo naquele
recinto, só o frequentava seres humanos. Acreditava que anjos e
demônios estavam ocupados em abrir os olhos dos ingênuos que
lotavam igrejas. Ali, entre álcool e sexo, todos eram santos e
estavam salvos do mundo irreal e dissimulado dos homens de bem e dos
tolos.
Mário
se afastou do beligerante Peixoto e com uma garrafa de vodka
sentou-se numa mesa escurecida pelo canto distante da luz. Perto da
jukebox velha havia uma silhueta feminina que não conhecia. Ela
olhava atenta para a tela da máquina a perscrutar suas canções,
sorriu e apertou os botões. Em seguida começou a tocar Wish you
were here. Ela se virou e
começou a dançar consigo mesma. Os olhos fechados e como uma
serpente seduzia os machos ao acasalamento. Mário pensou: “A puta
tem bom gosto!”. Mário sorriu para ela e a convidou para se juntar
a ele. Ela veio.
-
Olá, qual o seu nome? -
Perguntou o detetive.
-
Soraya. - Respondeu a mulher.
-
Assim mesmo, com ípsilon? - Interrogou o astuto investigador.
Soraya
deu um sorriso e disse:
-
Você é o detetive, não? - E sem deixar Mário responder, emendou:
- O Igor sempre fala de você.
-
E ele fala bem ou mal, esse porco velho? - Ironizou Mário.
-
Nem bem, nem mal, ele apenas fala. - Mário percebeu que a mulher
tinha dignidade, pois sabia usar as palavras adequadas para aquele
templo. Ela tinha bom gosto musical e coerência ao utilizar uma
jukebox velha.
-
Não tem como ser tão indiferente! - Mário insistiu com a conversa
e quis pegar a dama da jukebox em contradição.
-
Sim, tem sim. Ele fala sem julgar. - Naquele momento Mário percebeu
que precisava ter aquela mulher para sempre. Não queria saber seu
passado, mas aquelas poucas palavras revelavam a grandeza de seu
espírito que vagava perdido pelas ruas de Nova Iguaçu, por camas
diversas e sendo penetrada por homens que não mereciam sua
dignidade. Mário ficou
sinceramente triste e puxou a dama para junto de si e ela não o
resistiu. Ele colocou sua cabeça em seu ombro e pode sentir o cheiro
gostoso
da mulher. Parecia não usar perfume, era seu cheiro natural,
angelical, demonicamente angelical.
-
Eu preciso de emprego. Eu
preciso de dinheiro e proteção. - Disse com uma voz tão infantil
que Mário ficou todo comovido. O álcool prepara os homens para as
bem-aventuranças.
-
Preciso de uma secretária, mas não posso pagar bem. - Propôs o
detetive.
-
Eu topo. Preciso me livrar de um cara. - Respondeu de imediato a
boneca da jukebox.
-
Um tarado? Um marido? Um gigolô? - Ofereceu algumas alternativas o
ansioso embriagado Mário.
-
Não, meu pai. - Respondeu
com certa dor a mulher.
-
A gente vê isso, boneca. - Emendou Mário com a intenção de
encerrar a conversa e concluir o ciclo álccol-e-sexo noturno.
Mário
levou Soraya para a Otávio Tarquino, número 166, sala 13. Abriu a
sala, a moça entrou e Mário trancou a porta. Mário preparou o
sofá-cama, forrou com um velho lençol, acessou o streaming e
procurou Pink Floyd. Apertou o play em Wish you were here.
Quando a música começou a tocar, Soraya novamente começou balançar
seu belo corpo. Aquela música era a chave de sua alma. Música que a
resgatava da lama. Mário dançava com ela e começo a despi-la. Ela
não resistia e continuava dançando de olhos fechados. Agora os dois
estavam nus e Mário trazia Soraya para o sofá-cama. Amaram-se. Após
o coito, Mário acendeu um cigarro e olhava distante para o céu
escuro da noite suja da Baixada Fluminense. Soraya recostava sua
cabeça no peito do detetive e disse-lhe: - Somos duas almas
perdidas. Dormiram.
