terça-feira, 9 de maio de 2017

Nova Iguaçu, pulp! - UM



UM


Mário já estava sem serviço há três semanas. Tinha que pagar o aluguel da sala que ocupava como escritório, na rua Otávio Tarquino, número 166, em Nova Iguaçu. Tinha que pagar a pensão alimentícia, coisa que não reclamava, pois eram trezentos e sessenta reais para viver livre. Dinheiro muito bem pago para se livrar de um péssimo casamento com a infiel Maria do Socorro e não ter a obrigação de educar o pequeno Samuel, pois tudo indicava que o moleque seguiria o caminho tortuoso da vagabundagem carioca. A eletricidade já tinha sido cortada pela famigerada Light, mas que já resolvera essa pequena pane com seu amigo Edmílson, um sujeito que trabalha numa empresa de instalação elétrica terceirizada.

Mário é detetive particular. Cuida de tudo. Até pouco tempo tinha um ajudante, mas a crise econômica do país e o caos financeiro do estado do Rio de Janeiro fez com que ele o demitisse. Sem mulher, sem filho e sem ajudante. Poderia se empenhar mais nos casos, mas os casos sumiram. O último caso que pegou seria enfiar na cadeia um pastor ladrão e tarado. Coisa que não conseguiu, pois o pastor acabou mexendo com a “irmã” errada, mulher de um policial lá das bandas de Cabuçu. Apareceu morto em cima do púlpito e com as calças arriadas. Fim de caso, nada de grana.

Mário trazia consigo o otimismo que herdara dos Alves, família paterna. Ele sabia que a qualquer momento cairia em seu colo um caso, quem sabe até um grande caso que lhe daria uma certa estabilidade financeira. Contudo, Mário também herdara o pessimismo dos Gonzagas, família materna. Pessimismo que sempre ficava ali, à espreita, quando os casos demoravam a aparecer, quando as contas começavam a chegar.

O prédio que Mário tinha sua sala, era um três andares dos anos 60. Quatro salas por andar. O primeiro andar, o andar de Mário, sala 13, era um verdadeiro deserto. A única sala em funcionamento era a dele. O prédio não tinha elevador, coisa que o primeiro andar lhe dava certa compensação. O prédio pertencia à Diocese de Nova Iguaçu e por ser muito velho sofria a indiferença dos padres. Mário sabia que a qualquer momento a Diocese poderia negociar o prédio e ele estaria na rua. Um caso era necessário, muito necessário. Certa vez, passou-se por carola e foi confessar-se na Catedral de Santo Antônio com o intuito de investigar os interesses do clero iguaçuano sobre o velho prédio da Otávio Tarquino. Não conseguiu muita coisa, mas no final da investigação suspeitou que a Igreja desconhecia a propriedade. Nesse caso, a riqueza apostólica o favorecia, pois sendo proprietária de tantos prédios, os mais arcaicos e ultrapassados acabavam ficando no esquecimento. E Mário precisava agir antes que o clero recobrasse sua memória.

Osvaldo era o zelador do prédio. Não era um funcionário legalizado, mas costumava dar uma varrida na entrada todas as manhãs em troca de algumas gorjetas dos três ocupantes do prédio. Mário dava-lhe dez reais por semana. Edgar, o chaveiro, pagava-lhe o café. Dona Rosa, do brechó, dava-lhe algumas roupas velhas.

Naquela terça-feira, Osvaldo entrou na sala do detetive com a respiração ofegante e puxando Mário até a janela.

- Mário, vem aqui na janela e olha que tesão de mulher que parou o carro em frente do prédio! - Dizia apertando o pulso do detetive que por impulso se levantou por causa do “tesão de mulher” e empurrando o zelador por causa do “apertando o pulso”.

- Porra, Osvaldo, não precisa apertar! Saí pra lá, deixa eu ver! - Gritou ofensivamente Mário, jogando-lhe um olhar de raiva.

- Ah, você demorou… Ela saiu. Olha, é aquele carrão ali. - Completou o zelador desanimado.

Quando Mário retornava para a mesa de trabalho via na porta uma silhueta feminina. Ele puxou Osvaldo que ainda procurava a mulher da janela e disse:

- Sua anta, abre a porta e suma! - Ordenou o detetive.

Coisa que o zelador fez automaticamente.

- Bom dia. O senhor é o detetive?

A mulher tinha um metro e setenta. Cabelos negros longos. Pele clara. Pernas longas, mas proporcionais à estrutura do corpo. Lábios grossos. Cheirava algum perfume original importado. Olhos castanhos. Bunda apetitosa. Seios fartos. Uma visão! Mário sempre ficava surpreso com o Rio de Janeiro, pois em cada lugar, independente do bairro, pululam as beldades.

- Não, ele é apenas o zelador e já tava de saída. - Antecipou Mário e cochichando ao ouvido do zelador, disse: - Suma daqui, sua desgraça! - Osvaldo riu e sumiu escada abaixo.

Mário, após se livrar de Osvaldo, convidou a bela mulher a entrar, puxou sua melhor cadeira e emendou: - Seja bem-vinda, senhora ou senhorita…? - Pergunta que foi fuzilada pelos belos olhos castanhos da beldade branca insinuando que preferia o anonimato.

- Óquei, sem problema, podemos manter a discrição. - Disse cuidadosamente com medo de perder uma grande possibilidade de sair do buraco financeiro que se encontrava.

- Sim, assim é melhor. Bem, me chame de Lady K. - Sugeriu a mulher.

- Sim, sem problema. K é sempre bom, né? Tem Kafka e Dostoiévski, não? - Mário tentou passar um ar de homem culto que naquela pocilga certamente não teria quase nenhum efeito. E emendou em seguida: - Aceita alguma bebida?

Depois de fazer a pergunta torceu para que a gostosa apenas negasse educadamente ou pedisse um cafezinho. Nem um nem outro, ela ignorou. Talvez por que soubesse que ele não teria nada digno de se beber. A mulher ficou em silêncio olhando para o detetive. Olhar que o penetrava como uma máquina de raios x e perscrutava cada parte de seu organismo. Mário tentou imaginar o que a mulher estava pensando. Talvez o avaliasse fisicamente e seria uma decepção. Talvez ela teria a ideia de detetives de Hollywood, mas aquele da Baixada Fluminense estava longe de colocar um sorriso numa bela mulher. Aquele sujeito de cor parda, cabelos crespos, barba por fazer, barrigudo, baixinho. Nada, nada mesmo que pudesse servir de atração ao sexo oposto, nem mesmo os veados se sentiriam atraídos. O silêncio da mulher começava deixar Mário incomodado. E quando ameaçou quebrar o silêncio, a mulher o antecipou: - Posso fumar?

- Sim, Lady K., a vontade. - Respondeu Mário com um sorriso no rosto orgulhoso por ostentar tamanha ousadia em permitir alguém fumar em pleno século vinte-e-um num ambiente fechado. O orgulho foi se desfazendo junto com o sorriso quando percebeu que a mulher não pedira permissão, pois antes mesmo dele responder a pergunta, ela já havia sacado seu Lucky Strike e tragava profundamente o tabaco torrado.

- Você mata? - Fuzilou a beldade K. A pergunta ecoava na sala 13 do primeiro andar do velho prédio da Otávio Tarquino junto com a bela fumaça produzida pelo Lucky Strike.

- Matar? Olha, talvez não seja a melhor decisão, não? - Respondeu o assustado detetive. Resposta que deixava certa dúvida, dúvida providencial de pessoa desesperada que teme perder uma oportunidade única na vida. Contudo, Mário nunca matara e nem encomendara a morte de ninguém.

- Então, talvez você não seja a pessoa certa. - Concluiu a bela K com a voz mais sedutora possível. Voz que arrombou o seu ouvido, ignorando toda a sequência do funcionamento da audição e alcançando o coração do detetive que agora se acelerava em êxtase.

- Não, calma, querida! - A voz de Mário denunciava sua ansiedade e submissão àquela mulher linda e cruel. Agora o cheiro de tabaco torrado inundava todo o andar. - Conte-me a história! - Disse Mário quase gritando.

- Não tem história ainda. Apenas uma pergunta que preciso que você responda de imediato. Não posso perder tempo. Dependendo de sua resposta, dou-lhe a história. - Mário a ouvia atordoado. O “dou-lhe” chegou aos seus ouvidos como um convite sexual. Aquela mulher, aquele corpo, aquela voz, aquele tabaco, eram todos, escrituras sagradas; como se o próprio deus se manifestasse a ele e como um Abraão do século vinte-e-um recebesse a ordem divina de matar.

- Sim, eu mato! - Enfim, convencido por deus, Mário aceita a missão divina. - Sim, eu mato! - Precisou falar duas vezes para ter certeza que ela o ouvira. Lady K levantou-se, foi até a janela. Olhou por um tempo o movimento na rua. Depois voltou, sentou-se novamente e disse: - Muito bom, Mário, muito bom! Amanhã, nesse mesmo horário estarei aqui com a história. - Antes de sair ela pegou sua carteira Victor Hugo e jogou sobre a mesa um pequeno maço de notas de cem reais e disse: - Pelo seu tempo. - K levantou-se e saiu enquanto Mário, ainda atordoado, acompanhava o balanço do corpo da bela mulher. Repetindo para si mesmo, dizia o detetive: - Amanhã, a história, nesse mesmo horário...

A primeira edição

          Assim se deu o diálogo entre dois velhos amigos: - É apenas um livro. - Não, não é apenas um livro, mas a primeira e...