quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Diana




[Ela subiu no ônibus e os homens a olharam. Vestia uma minissaia e as pernas, ainda femininas, sem ainda sofrer a mutação dos ferros de academia, roçavam uma na outra fazendo um barulhinho que excitaria o monge mais radical – se é que ainda pode-se encontrar monges que apreciem o sexo oposto.]

[Ela sentia os olhares invasivos dos homens. Podia mesmo senti-los tocando em seu corpo e essa sensação era uma mistura de escândalo e êxtase. Até porque as duas sensações são irmãs inseparáveis.]

[Passou pela roleta sob o olhar reprovador da trocadora gorda e desprezada por aqueles olhares invasivos. Há tempos aquela mulher rancorosa não se escandalizava ou, até mesmo, sentia o êxtase em suas entranhas. E essa necessidade tão feminina provocava-lhe um rancor imenso, um ódio irracional ao belo, ao esteticamente ornado pelos deuses. Ela, algumas vezes, blasfemava.]

[O corredor do ônibus lhe serviu como passarela. Procurou um lugar para sentar, mas não encontrou. Parou no meio do corredor, próximo de uma senhora que ofereceu-lhe segurar sua bolsa. “Obrigada”. O homem que lia um jornal no banco atrás da senhora gentil a observou e fez aquela inspeção masculina quando diante de curvas impecáveis. Ele percebeu que os pelos das pernas da mulher estavam arrepiados e a luz do sol, fraca, valentemente abria caminho por entre pernas e pastas iluminava suas pernas como a indicar no palco o protagonista de uma peça teatral, como a revelar à humanidade o sentido de ser de todos os homens.]

[Um homem cochilava no banco da outra coluna aproveitando o balançar do ônibus e sonhava com a última viagem que fizera com a menina do terceiro andar e que a bordo de uma jangada deslizavam no mar de portodegalinhas, foi desperto pela batida de uma pasta em seu joelho, o jangadeiro dizendo-lhe: “Aqui é um bom lugar para mergulhar e ver as maravilhas...”]

[O sonhador pegou seu celular e conferiu as horas. Um vento da janela lateral bateu-lhe no rosto como um leve tapa a chamar-lhe a atenção para o outro lado. Ele virou-se e viu as costas daquela bela mulher, os olhos desceram deslizando sobre o corpo dela, fizeram parada em sua bunda perfeita e o traço em V da minissaia servia como seta direcional a um lugar de infinitos prazeres.]
[Sua primeira intenção era oferecer-lhe seu lugar, mas ao meditar ligeiramente percebeu que se privaria daquela visão em nome de uma norma social antiquada. Pensou: “As mulheres estão mais independentes e ela poderia receber aquela gentileza como uma atitude machista.” Resolveu: “Não, melhor deixá-la ali em pé como um ornamento a esse caos.”]

[A mulher estava à sua direita e a cada curva mais acentuada para o mesmo lado, as engrenagens do veículo forçavam a bela se empinar e o que era espetacular se tornava sublime.]

[O ônibus enchia e sua visão ia sendo atrapalhada pela multidão que começava a ocupar desordenadamente os espaços imaginários. Um homem gordo fechou-lhe a única brecha que existia entre o caos e a beleza. No entanto, a imagem já estava fixa em sua mente e mesmo com a visão tampada a memória insistia em lembrar-lhe das pernas, da bunda, das curvas daquela bela mulher.]

[Lembrou de um livro ou seria um filme… Não tinha certeza. Um homem que era capaz de qualquer coisa para alcançar o essencial da vida, melhor, era algo mais poético, mais filosófico; um homem que era capaz das maiores atrocidades sociais, capaz de infringir qualquer código moral social em nome de um bem maior.]

[Essa lembrança o agitou por dentro. Sentiu um formigamento na pele e o coração acelerar. Sentiu-se o homem mais corajoso do mundo e nenhuma barreira moral era superior a esse sentimento. A moral dos fracos e a moral dos fortes. Ele sentia-se forte. E pensou mesmo: “A vida consiste na escolha dessas duas morais: a fraca e a forte.” Escolhera a forte.]

[Pegou o celular, clicou na câmera, mudou para gravar e aproveitando-se do balançar eterno da barca do inferno passou o braço em meio a pernas e pastas até alcançar uma posição perfeita sob a minissaia da bela. Virou a câmera para selfie e clicou no botão vermelho. Chegou a pensar: “Ação!” A câmera registrava cenas que só seriam possíveis na intimidade daquela mulher. Agradeceu aos deuses da tecnologia e aos filósofos imorais. Aquela atitude levava sua adrenalina a níveis altíssimos e pensou: “Ah, loucura, mas que coisa gostosa, que coisa perigosa! Ah, como me sinto vivo!”]

[A mulher sentia um êxtase que não conseguia explicar. Êxtase provocado pelos olhares maliciosos masculinos e reprovadores das mulheres. Parecia que deuses antigos da fertilidade, vez ou outra, visitavam a pós-modernidade para lembrar aos homens e às mulheres os cultos orgíacos do passado remoto. O ônibus seria o templo de alguma diana. As pessoas ali espremidas seriam os fiéis. Algumas sacerdotisas austeras. Os homens, todos os homens, eram estrangeiros de passagem. O motorista era o único nativo e servo que podia cuidar do santuário como um zelador conservava a nave sempre preparada para as orgias divinas.]

[E diana soprou-lhe em seus ouvidos e a mulher sentiu um calafrio que subia pelas suas pernas. Olhando para baixo viu a imagem de seu sexo na câmera que, obedientemente, cumpria as ordens do homem. A imagem de si mesma, dos contornos mais belos e desejáveis por todos os homens daquela nave despertou na bela sua sensualidade. Sua mente guiada pela moral dos seus dias a reprovava, pedia-lhe que fizesse um escândalo, que denunciasse o agressor e invasor, que gritasse os bordões histéricos da meninada feminista; mas diana a acalmou.]

[Uma voz suave perpassava em sua cabeça: “Não, não reaja. Você é um sacrifício aos deuses e deusas que os homens esqueceram. Você é um ser celestial, sua beleza é dádiva e toda dádiva deve ser compartilhada.]

[Diana continuava: “O que você sente em saber que homens desconhecidos irão se deliciar com sua imagem? Quantos jovens vão se esgotar de prazer ao contemplar suas curvas enquanto se masturbam! Isso não lhe enche de êxtase, mulher? Isso não lhe revela o porquê da existência? Isso não lhe traz a vida de volta em meio a esse trágico e entediante cotidiano?”]

[A mulher convencida filosófica e moralmente por diana entrega-se completamente à volúpia.]

[O homem percebendo que o ônibus começava a se esvaziar, habilmente recolheu o braço. Conferiu a gravação. “Perfeita!”]

[Chegando ao centro, a bela mulher pegou sua bolsa com a mulher gentil. “Obrigada.” Dirigiu-se para a porta dianteira da nave sob os olhares dos estrangeiros e da severidade das sacerdotisas. Desceu e reiniciou sua missão de fazer prosélitos. Seu celular tocou e ela atendeu. “Alô.” “Alô, Diana, já está chegando?” “Sim, dona Sofia, o ônibus atrasou.”

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Destino




Ele dizia que estava disposto a quase tudo, mas jamais mataria ou traficaria drogas ilegais.
- O senhor entende, não? Tenho minha honra. Pode contar comigo, pois tenho uma família para alimentar, o senhor sabe, não sabe? Lembra do Gregório? Lembra que cumpri suas ordens tal qual o senhor orientou? O senhor disse: “Um corretivo nesse nêgo!”. E aí fui eu e o Zé Pilintra, lembra? Moemos o neguinho. Deu até dó, mas não matamos. Então, patrão, pode contar comigo; mas peço sua compreensão nesses assuntos de honra.
O patrão sabia que podia contar com ele. Pedia meramente que respeitasse sua dignidade. Não poderia ter a consciência em paz se tivesse a mão suja de sangue ou ter levado jovens à dependência de drogas. Quanto às cobranças de dívidas e corretivos era imediatamente voluntarioso. Certa vez confidenciara ao Pilintra que sentia certo prazer em dar umas porradas nesses desgraçados.
- Sabe, Zé, a gente que não é nada nessa vida, quando tem a oportunidade de demonstrar autoridade, ainda que delegada pelo patrão, dá um certo orgulho, não? É gostoso ter nas mãos esse poder, ainda que seja por algum momento. Olhar nos olhos do desgraçado e ver o pânico, o terror, o pedido de misericórdia, ah, como isso faz bem! Depois de moer o pobre a gente perdoa e sai. Quando o sujeito nos encontra é como se tivesse vendo uma mistura de deus e diabo. Zé, não existe nada mais prazeroso que ter a vida de alguém em suas mãos e depois decidir que ele pode viver.
Desde o primeiro dia que o patrão o conhecera, na porta de uma padaria pedindo esmola, sabia que ele era o homem certo. Ele ainda era jovem, mas não tinha vergonha de se expor ali diante daqueles burgueses e, junto com seu filho, humilhar-se. O patrão sabia que um homem preguiçoso e em grande necessidade preenchia todos os requisitos que precisava. Era só questão de tempo.
- Eu jamais disse não ao senhor, patrão, mas o que está me pedindo é algo difícil para mim. O Jadir e o Tenório aceitarão isso com certeza. Mas, eu... O senhor sabe, a minha honra... minha consciência.
O patrão apresentou-lhe os termos. Sobre a mesa deixara um trinta-e-oito, uma foto e um endereço. Antes de sair, disse-lhe:
- É isso ou retornar à mendicância.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"O quê?" ou "O dia que saí para ver a montanha."




- O quê?
Esse “o quê?” dela era irritadiço. Tinha a sua frente o notebook e vários livros. Sua mente então concentrada no aprofundamento das letras diversas era suspensa por uma intromissão qualquer. Uma intromissão que não tinha relação com seu aprofundamento ensimesmado.
- O quê?
Dava para ver em sua face o mal-estar provocado pela interrupção dos seus movimentos cerebrais. E a coisa ficava pior porque não era apenas o cérebro que trabalhava, mas o coração também. E aquela interrupção afetava a bomba de sangue. O sangue diminuía sua fluidez e sua respiração mudava. Ela precisava estar tensa, pois as letras provocam isso. Mas a interrupção tinha o objetivo de lhe tirar daquela tensão e transportá-la para tensões alheias.
- O quê?
- Esquece...
- Não, pode falar.
- Esquece, nada de importante, depois te falo.
- Tá, ok.
Resolvi sair e ir até à montanha. Já a avistava de longe. Não tem chovido, mas seu mato ainda está verde. Um verde de verdade. Um verde que ainda resiste. E ela deslizava como cascata e repousava se esparramando num lago qual espelho. Sua imagem era refletida no lago e parecia haver um outro mundo lá dentro. Um mundo mais sereno, calmo. Os seres do lago viviam uma paz diferente, uma indiferença total às coisas do lado de cá. Mas ainda esse pedacinho do mundo real era bonito e admirável.
Na beira da estrada bebi café adoçado com rapadura. Voltei para casa contornando outras montanhas, outros lagos. Talvez o prolongamento da mesma montanha e do mesmo lago. A lua já aparecia e me acompanhava.
Cheguei em casa. Passei pelo seu quarto. A porta estava entreaberta. Vi seu corpo curvado, seus olhos inchados, sua face vermelha.
- Entra.
Entrei e conversamos.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Whatever...




Entrou no bar e deu um soco no Armando. Chegou o pessoal do “deixa disso”, mas quando viram que era ele, se dispersaram. Armando se levantou com certa dificuldade sem nenhuma ajuda do pessoal do “deixa disso” e saiu do bar. Ele bebeu uma cerveja, uma caipirinha, comeu um pastel, um ovo rosa e meteu a mão na bunda da Ângela. Ele saiu do bar e foi para casa.
Ele chegou em casa, tirou os sapatos, espalhou as roupas pela sala. Ligou a TV e assistiu a uma luta de MMA. Xingou, abriu uma cerveja. A mulher levantou e pediu que diminuísse o som e parasse de berrar como um bárbaro. Ele riu e disse que depois mostraria-lhe o bárbaro na cama. A mulher riu e virou-se deixando a mostra a lingerie nova e sensual. Ele desligou a TV, pegou a mulher e a levou para o quarto. Ele fez amor com a mulher.
Saiu de manhã, pegou o carro e cruzou com o Armando no sinal. “Da próxima vez te mato, Armandinho!” Chegou ao trabalho, bebeu um cafezinho, discutiu sobre a luta de ontem com os colegas de trabalho. Os colegas de trabalho disseram a ele que sábado próximo será o churrasco da chefia. “Não é pra levá as esposa, hein!” Saiu mais cedo e comeu a Lurdinha.
Ele voltou para casa, tirou os sapatos, espalhou as roupas pela sala e viu um bilhete sobre a mesa da cozinha. Era um bilhete da mulher.
Tô na casa do meu pai, quando chegar me liga. Teu prato está pronto na geladeira, esquenta no microondas. Beijos.
Comeu, tomou banho, masturbou-se e saiu. Ele ligou para a Lurdinha, mas ela estava em casa com o marido. Ele ligou para a Priscila, mas só deu caixa postal. Ele ligou para o Armando e foram tomar uma cerveja.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Decisão




- Carlos. Carlos, você está me ouvindo?
- Sim, senhor.
- Desculpe-me ligar essa hora, mas preciso que você esteja pronto amanhã, às nove horas para viajar. Estou com sua passagem, mas vou emiti-la direto para a companhia. Basta você estar no aeroporto às nove horas e se identificar no check in. Carlos, você entendeu?
- Entendi, sim, senhor.
- Olha, não esqueça de levar o material, ok?
- Ah, sim, o material. Vou levantar e arrumar tudo.
- Não, não precisa, ainda é cedo, vá dormir.
- Durmo no avião.
- Ok. Obrigado, Carlos. Carlos, o material viaja como bagagem de mão. Não esqueça.
- Sim, eu sei. Pode deixar. Vou fazer um café e me preparar.
- Ok. Então tá combinado. Os procedimentos são os mesmos, apenas tive que antecipar a viagem. A grana estará em sua conta amanhã de manhã, já fiz a transferência. Hotel, ok. Obrigado, Carlos.
- Ok, senhor.
- Boa viagem e até semana que vem.
- Até.
Todas as pessoas têm a chance de tomar a decisão de sua vida. O difícil é saber qual o momento exato para tomá-la. Carlos sentia esse peso a cada momento. Algumas vezes pensou ser o momento ideal, mas depois de meditar bastante mudava de opinião e prorrogava a tomada de decisão. Passou um tempo sem se preocupar com isso, mas naquele momento, na cozinha, enquanto esperava a água do café ferver, voltou a cogitar a situação. Sua mente divagava agora, mas o apito da chaleira o trouxe de volta. A água fervendo passando pelo café, o cheiro do café o levou à infância. Ouviu a voz de seu pai: “Carlinho, Carlinho, presta atenção, filho... Olha, filho, tem que estar preparado para quando a bola for lançada em sua dire...”
- Carlos Xavier. Não, essa bolsa é bagagem de mão. Obrigado. Portão...
Carlos checou sua conta. Dinheiro, ok. Ligou para o hotel. Hotel, ok. Meditava sobre a vida. Vida, ok? Havia dúvidas ainda. Receios. Mas alguma coisa o incomodava. Um incômodo gostoso, pois colocava fogo em seu espírito. Ansiedade. Tomar a decisão. Checou novamente o material. Material, ok. Seu celular vibrou no bolso da calça, assustou-se. Era o chefe.
- Carlos? Tudo bem?
- Sim, senhor. Tenho que desligar, tô embarcando.
- Ok, boa viagem. Conferiu o voo? Tudo, ok? Parece que o voo é 0 190...
Carlos desligou. O chefe pensou que perdera o sinal. Mandou-lhe um sms.
- 7.
Carlos embarcou no voo 990... e sumiu.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Precisa-se de teólogo




“Precisa-se de Teólogo”
Dizia a placa na entrada de uma grande igreja evangélica. Só poderia ser um sinal. Na verdade, ele já não acreditava mais nessas coisas de sinal, milagres, etc. Mas aquele anúncio o pegou de surpresa. Jamais vira em todos seus cinquenta anos uma placa que oferecia vaga para teólogo e numa igreja evangélica. Resolveu entrar. Ele aproximou-se de um senhor que limpava o santuário.
- Bom dia, senhor. Meu nome é Carlos e gostaria de me candidatar à vaga de teólogo.
- Bom dia. Espera um minuto. - O velho tirou do bolso um celular e discou os números. Se afastou para ter um pouco de privacidade. Carlos observava a conversa do velho com alguém do outro lado do celular. O velho tinha uma risadinha chata, de hiena. Aquela risadinha deixou Carlos preocupado, mas assim que pensou em desistir o velho desligara o celular e disse-lhe: - Está vendo aquela placa vermelha? Ali tem uma escada. Pode subir e no corredor entre pela segunda porta a direita. O reverendo irá recebê-lo. - Carlos agradeceu e subiu as escadas.
No corredor, Carlos teve um mal pressentimento. Ele era escuro. Na verdade ele tinha uma iluminação bem fraca e podia ouvir o som de um órgão. O cenário parecia de um filme b de terror. As cruzes sem cristo nas paredes davam um tom a mais de terror no cenário. Passou pela primeira porta que tinha uma janelinha, mas o interior da sala totalmente escuro. Chegou à segunda porta e pôde ouvir que o som do órgão vinha dali de dentro. Bateu na porta e ouviu uma voz rouca lá de dentro: - Pode entrar. - Carlos entrou e viu que estava num tipo de sala de espera. Mais iluminada. Uma janela que dava para a rua dos fundos da igreja. Foi até a janela e respirou fundo o ar poluído de lixo. Olhou para baixo e viu os latões.
- Bom dia. - A voz rouca e feminina assustou Carlos. - Desculpe-me se te assustei. Meu nome é Sandra, secretária do reverendo. Ele já vai atendê-lo. Veio para a vaga de teólogo, não?
- Sim. Mas não trouxe nenhum documento. Ia passando pela porta da igreja e vi o anúncio. Então resolvi pegar mais informação.
- Ah, entendo. Não tem problema, o reverendo te explicará tudo. Aceita um café? Não? Água? Não? OK, pode se sentar, o reverendo está terminando seu devocional.
Devocional. Carlos lembrou dos dias de seminário de teologia. Não sabia que ainda reverendos cultivavam devocionais. O telefone tocou, Sandra atendeu e depois de algumas palavras desligou. Virou-se para Carlos e disse: - Pode entrar, o reverendo o aguarda.
- Obrigado.
O reverendo era um sujeito alto e gordo. Cabelos grisalhos, bigodes grisalhos. Os grisalhos não lhe concediam mais idade, mas lhe davam um certo charme de meia idade. Vestia um terno sem o paletó. Ele estava de pé atrás de uma grande mesa de madeira e na frente de uma grande estante repleta de livros. O olhar do reverendo revelava muita leitura. Sua testa vincada revelava muita meditação. Carlos pensou por um instante que aquela igreja não precisava de um teólogo, pois aquele sujeito esbanjava sabedoria e saúde.
- Bom dia, reverendo, meu nome é Carlos e...
Sem deixá-lo terminar a apresentação, o reverendo emendou: - Bom dia, Carlos. Seja bem-vindo! Viu a placa lá na entrada e deve ter estranhado, não?
Carlos meditou uns instantes e percebeu que não adiantava dissimular. - Sim, reverendo, para ser sincero...
Novamente o reverendo o interrompeu. - Sem formalidades, Carlos. Me chame de Luiz.
- Ah, sim. Bem, Luiz, para ser sincero nunca vi numa igreja uma oferta de trabalho para teólogo. E vendo agora sua sala, parece que o senhor, quer dizer, você é um estudioso.
- Sim. E daí você concluiu que uma vaga para teólogo seria contraditória?
- Bem, não quis ofendê-lo, mas...
- Não, Carlos, você não me ofendeu. Não sou o tipo de homem frágil que se ofende. Apenas deduzi o que você deduziu. Mas, sim, precisamos de um teólogo. Não desses teólogos idiotas que os seminários nos mandam. Mas precisamos de um teólogo corajoso, com opinião. Entende? Temos uma porção de teólogos na igreja que fazem o mais do mesmo. Precisamos de um sujeito ousado. Você tem ousadia, Carlos?
Carlos não esperava aquela pergunta e não sabia como respondê-la. Ficou em silêncio e esperou uma nova interrupção do reverendo. Dessa vez, Luiz apenas fuzilava Carlos com seus olhos azuis. E só agora, Carlos percebera que os olhos eram azuis. Então, Carlos teve que falar.
- Bem. Não sei que tipo de ousadia vocês procuram. - Carlos encontrou uma resposta satisfatória, pois não o comprometia.
- Ousadia de ofender as pessoas.
- Ofender as pessoas?
- Sim. Nossa igreja está repleta de teólogos que massageiam egos, que são extremamente tolerantes. Precisamos de um contraponto, entende, Carlos? Precisamos do contraditório!
A voz do reverendo agora alcançava notas mais altas e graves.
- Entende agora por que colocamos uma placa? Colocamos uma placa de oferta de emprego para que alguém de fora venha e não nos mandem os mesmos tolos de seminários. Teólogos treinados para manterem o estado de coisas. Olha, Carlos, eu também já fui como esses jovens idiotas teólogos, mas me cansei. Ser igual é cansativo. Ser o mesmo é o verdadeiro e único inferno.
- Sim, entendo. Mas você não é o reverendo? Já não faz o contraponto? Por que precisa de mais um?
- Ah, finalmente você chegou à questão. Veja bem, Carlos. Faremos uma dupla. Dissimularemos. Provocaremos. Vamos começar entre nós. Eu afirmo isso e você afirmará o não-isso. Chegaremos a exaustão da discussão. Os teólogos idiotas tomarão partido por mim ou por você, entende? Dividiremos. Sacudiremos. Os corações precisam ser sacudidos, As mentes precisam estar revoltas em si mesmas. Você está entendendo, Carlos?
- Sim, Luiz, sim. Levaremos todos eles, toda a igreja à exaustão de si mesmos!
- Isso, Bravo!
- E ao alcançarem a exaustão extrema provarão a cruz. Provarão o sangue escorrendo pela boca. As veias dilatadas. As mãos e os pés sangrando. E dirão: “onde erramos, Senhor?”
- Isso, Carlos, você realmente entende! A exaustão exacerbada do corpo alcança o espírito! E precisamos alcançar o espírito para que esses idiotas acordem!
- Sim, entendo, Luiz! Quero a vaga. Essa vaga é minha.
- Sim, é sua, Carlos. Não aguentava mais te esperar.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Incômodo




“Todos os livros são bons, até o momento em que você abre dostoiévski.”
Pensei alto. Não, não saiu nenhum som involuntário de minha boca, mas a mocinha do caixa sorriu para mim como se tivesse percebido alguma coisa pelos traços de meu rosto provocado pelo pensamento alto.
- São sessenta e nove reais e noventa centavos, senhor.
Ela continuou com um vago sorriso que escorria por um dos cantos de seus lábios. Parecia que queria me falar alguma coisa, alguma coisa impulsiva que era controlada pelo olhar austero do gerente. Um sujeito grandalhão com cara de “poucos amigos” para os funcionários e um grande dissimulador de “simpatia” para os clientes que compravam. Eu recebi as duas caras do gerente porque estava próximo da mocinha do caixa. Alguma coisa a incomodava. Alguma coisa sempre está nos incomodando. Até mesmo o gerente “caxias” tem algum incômodo.
- O senhor possui nosso cartão fidelidade?
- Não.
- Não? Gostaria de fazer o cadastro e acumular pontos nas compras, senhor?
Aquele “senhor” já estava me incomodando, mas parecia que ela queria me incomodar com o que a incomodava. Resolvi gastar mais alguns minutos com ela, dando-lhe oportunidade de falar.
- OK, o que você precisa?
- Apenas o seu ce-pê-efe, senhor.
- OK.
Fiz o cadastro e nada mais. Ganhei os pontos pela compra de dostoiévski e saí. Talvez interpretei errado a mocinha. Fui tomar café com um amigo.
- Por que essa mania de comprar sempre uma nova edição de crime e castigo?
- Ora, você sabe que eu gosto. Cada um coleciona o que lhe agrada.
- Sei.
Quando cheguei em casa peguei dostoiévski e coloquei ao lado das outras edições. Uma ponta da folha se projetava para fora do livro novo. Aquilo me irritava. Abri o livro e um papelzinho caiu da página cinquenta-e-um. Havia algo escrito no papelzinho. Letra feminina. Letra da mocinha do caixa. Senhor, desculpe-me o atrevimento. Estava lhe observando na loja e vi que tem um gosto diferenciado para literatura. Eu tenho um blog... Ela me pedia para ler seus escritos literários em seu blog e gostaria de saber se deveria continuar escrevendo ou desistir e se render à austeridade do gerente. Li. No papelzinho tinha o seu celular. Mandei-lhe uma mensagem: Rose, não pare de escrever. Carlos, o cara do dostoiévski.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Deus gosta di proseá




- Ô, Tonho, tava pescano nada. Pelei pru santo e num diantô. Óia que num trusse nadica.
- Pelô errado, Tião. Num dianta pelá pra santo, ômi. Num sabe que santo é ômi como nóis?
- Ara, Tonho! Mas santo tá mais perto di deus, caboco.
- Tá nada, capiau. Tá tudinho di debaxo da terra. Pelô pra nada, Tião. Tem que pelá pra deus, cabra.
- E tu agora tá mitido em batina de seminarista, ômi?
- Num é nada disso, caboco. Num credito mais nessas coisa di santu, num sabe? Fica im casa sem trabaiá e vê si santu ajuda? Sai pra trabaiá e vê si santu ajuda? O qui ajuda, ômi, é nosso isfôrsso, num sabe?
- Eita, Tonho, tu tá virado...
- Tô virado, não, ômi. Eu tô cum os ói aberto.
- Tô veno, mas toma cuidado cum esses pensamento, sô. Issu num é bom. Um primo meu lá da cidade cumessou assim. Ôje num credita mais im nada.
- Num carece di preocupá dissu, não, cumpadi. Meu casu é ôtro. Tô cansado é dus santu. Issu é uma cambada de parasita, num sabe?
- Eita qui a coisa é séria memo. Cumpadi, você já pensô em falá cum padre Afonso?
- E é cum esse memo qui num falo mais. Me passô um sermão e mandô fazê reza. Saí chutano pedra em mindingo.
- Virgem mãe santíssima, cumpadi!
- Eu prucurei a mãe Joana.
- A ispirita, ômi?
- Essa memo, Tião. A mema ladainha, num sabe? Só muda di nomi. O padre fala di santu, ela falava de intidade.
- E aí, cumpadi, qui tu fez?
- Ara, cumi as pipoca e fui s’imbora.
- Eita! Tu cumeu as pipoca du santu?
- Cumi, ispirito num comi, ara!
- Eita que cumpadi Tonho tá endoidado da cabeça!
- Tô não, ômi. Eu tô é curado.
- Sei não, ômi. Daqui im pôco num credita mais nem im deus.
- Ah, não cumpadi. Em deus sempre credito. Deus é mais discretu, num sabe?
- E é?
- É sim. Ele num prometi nada. Ele criou essi mundão e deu as ordem. E num tem santu, num tem ispirito qui muda issu, Tião. Tem não.
- Eita qui falô bunitu, Tonho!
- Ara, e falei é?
- E pruquê cumpadi pédi as coisa pra deus? Cumpadi num dis qui deus é discretu e num prometi nada?
- Pesso nada, não, Tião. Sigo só conversano com ele. Só conversano, num sabe? Deus gosta di proseá.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A tatuagem




Atílio acordou e sentiu uma dor no braço. Arregaçou a manga longa da camisa e viu, ainda vermelho de sangue, o número sete tatuado em seu braço. Atílio não era daqueles que se admiravam com coisas esquisitas, com coisas que fugiam ao cotidiano. No entanto, aquele número tatuado em seu braço o fez percorrer os labirintos de sua memória, pois não se lembrava de ter feito tal tatuagem.
Atílio tomava café na cozinha enquanto folheava o jornal. Quando passava pela seção de medicina e saúde se lembrou da tatuagem. Arregaçou a manga do paletó e a viu de novo, com menos sangue. A cor negra agora era mais forte e os contornos do número sete mais nítidos. Chegando à seção policial começou a investigar de como teria se dado aquilo. Várias hipóteses se apresentavam em fila indiana ao seu pensamento inquiridor. Ria de algumas e outras as achava possíveis.
No sinal vermelho esperava o sinal verde enquanto assistia um sujeito cuspindo fogo na frente dos carros. Pensou no fogo. “Será que sai com fogo?” Lembrou de Marcílio, seu amigo bombeiro. Talvez lhe telefonasse e perguntaria se o fogo resolveria. Com fogo se faz muita coisa. O que seria de nós sem o fogo. O sinal vermelho apagou e o sinal verde acendeu. O cuspidor de fogo recebeu algumas moedas e os carros seguiram.
No trabalho conversava com Ângela.
- Por que o número sete?
- Não sei, quando acordei estava aí, em meu braço.
- Como assim? Como uma tatuagem aparece assim, Atílio?
- Sei lá, não me lembro. E é coisa recente, pois ainda dói.
- Dói? O que você fez ontem?
- Nada, ora. Jantei, vi tv e fui dormir.
- Bem, a tatuagem discorda do que você diz.
- Como assim?
- Por que você não vai ao médico? Tenho um amigo psiquiatra muito bom. Anota o número dele.
- Tá.
Depois do almoço, Atílio foi ao banheiro e esfregou álcool sobre o número sete. Nada. Ele não ligava, talvez estivesse em transe com alguma mulher e não lembrava. Atílio não era dependente químico, mas em algumas festas já perdera a razão por alguns momentos em meio a pequenas orgias.
Atílio jantava na sala e via tv. Ignorou algumas mensagens para beber e para curtir a noite. Ficaria em casa sóbrio por algum tempo até entender, ou melhor, se lembrar o porquê da tatuagem. Desligou a tv e foi para a cama, dormiu. Na manhã do dia seguinte, o celular despertou Atílio. A dor no braço voltara. Levantou-se, foi ao banheiro, acendeu a luz, arregaçou a manga longa de sua camisa e viu, ainda vermelho de sangue, o número seis tatuado.

O fazedor de letras




- O que você faz?
- Faço letras.
- O curso?
- Não. Letras mesmo.
- Ah, sim. Um fazedor de letras. Trabalha em publicidade?
- Não. Bem, já trabalhei, mas hoje só faço letras, mesmo.
- E dá pra viver disso?
- Sim. Dá pra terminar de viver fazendo letras.
- Hum... Mas me referia a dinheiro...
- Ah, sim. O maldito dinheiro, né? Não, faço letras por prazer, pra mim mesmo. O dinheiro vem de outra atividade.
- Esperto. Garantiu a grana e agora vive de prazer.
- Mais ou menos.
- E por que escolheu as letras?
- Porque elas proporcionam mais liberdade e preciso de liberdade.
- Liberdade?
- Sim. Veja os números. Eu poderia optar pelos números, mas eles seguem à risca o imperativo categórico de Kant.
- Imperati...? Categóri...? Cánt?
- Esquece isso. Olha, os números são muito corretos e não deixam margem para discussão. Na verdade eles acabam com qualquer discussão, qualquer diálogo. Eles fazem tudo ser conclusivo. Eles finalizam.
- Finalizam?
- Sim, veja. Em todas as conversas no mundo todo, três mais dois sempre será cinco. E fim.
- É verdade. E as letras? Elas também seguem regras, não?
- Sim, regras rígidas de acadêmicos parasitas. Regras feitas por letras escritas pelas mãos de parasitas. Mas sempre há a literatura marginal, alternativa, rebelde, etc. Veja que até mesmo o “etc” é infinito.
- Como os números...
- Sim, como os números. Mas os números são infinitos na mesmice e as letras são infinitas em novidades.
- Bonito isso.
- Sim, acho belo mesmo. As letras são a beleza do mundo. Os números são a concretude, a dureza desse mundo. Não há poesia em estatísticas, em comprimentos, em unidades, dezenas, milhares. As letras dão sentido à vida. Os números ignoram os sentidos, apenas relatam friamente os fatos. As letras são usadas em todas as áreas de conhecimento, adaptável, contraditória, revolucionária, conservadora, religiosa, iconoclasta, romântica, em resumo: elas são tudo.
- Difícil não concordar. Mas os números são necessários.
- Absolutamente, mas sem as letras, eles fariam com que a existência fosse insuportável.

sábado, 8 de julho de 2017

A religião é um canto...




- Você na missa? Você não é agnóstico?
- Sim. Não.
- Sim e não?
- Sim, sou eu na missa. Não, eu não sou agnóstico.
- Ah, entendi. Como não é agnóstico? Você vive criticando a igreja, o clero e os fiéis.
- Sim, é verdade. Mas o agnosticismo não tem relação com essas amenidades humanas. O agnosticismo é uma dúvida racional sobre a existência ou não de deus ou deuses.
- Ah, sim. É o sujeito que fica em cima do muro, não?
- Bem, não o vejo assim. Acho até mesmo um sujeito razoável. Um sujeito pragmático que não quer se comprometer com coisas que não têm respostas ou resposta.
- Sei, apenas uma maneira bonita de se referir a ficar em cima do muro. Mas o que você faz aqui, na igreja durante a missa já que critica tanto os religiosos?
- Sim, parece uma auto-contradição, não? Bem, não parece, na verdade é uma mesmo. Mas venho aos domingos na primeira missa por causa do canto gregoriano.
- Ah, entendi. Na verdade você apenas dissimula rebeldia.
- Não, meu caro, não sou rebelde. Sou até mesmo bastante conservador em questões de moral. Venho apenas por causa da música. E isso não é uma parte eclesiástica de minha existência, mas apenas um sentimento estético.
- OK, mais uma maneira bonita...
- Não, acredite, eu digo a verdade. A música é alimento para a minha imaginação, para minha atividade criativa.
- Você é um artista?
- Sim, sou um artista independente.
- E qual a sua arte?
- Escrever contos. Sou contista.
- E isso conta?
- Para mim, sim. Muitos artistas famosos eram contistas e foram reconhecidamente célebres por esta arte.
- É verdade.
- Agora se o amigo me der licença está na hora do miserere e preciso terminar esse conto.
- Ah, sim, a vontade.

O reducionista




- Percebi sua guinada para a esquerda.
- Para a esquerda? Mas estou parado, meu caro.
- Não, não me refiro a movimentar o corpo, mas às ideias políticas.
- Ah, sim. E por que você acha isso?
- Você não é mais o mesmo.
- Não sou mais o mesmo? Bem, antes preciso saber alguma coisa.
- Pois não?
- Isso que você pensa sobre mim é bom ou ruim?
- Ruim, ora.
- Ah, entendi. Você é um militante, não?
- Sim, milito em nome da moral e dos bons costumes!
- Muito bem! Mas por que você acha que eu..., para usar as suas palavras, ... dei uma guinada para a esquerda?
- Suas ideias. Você não é mais o mesmo.
- Talvez isso seja bom, não?
- Ser de esquerda?
- Não, não ser mais o mesmo.
- Bem, no seu caso é ruim.
- Por quê?
- Porque você abandonou a moral e os bons costumes. Foi seduzido por uma ideologia imoral.
- Olha, não sou adepto de nenhuma ideologia. Talvez, você, meu caro, seja um desses reducionistas populares.
- Reducionista popular? O que você quer dizer com isso?
- Ora, isso é simples como seu julgamento. Se meus pensamentos começam a desalinhar dos seus, ou melhor, da ideologia que você entende como verdadeira, defensora da moral e dos bons costumes; então estou me desviando para o lado contrário do seu. E nesse caso me desvio para a imoralidade, já que você tem certeza que o seu lado é o lado certo, o único certo. Isso é ser reducionista, ou seja, não admitir outras possibilidades e reduzir tudo a isso ou aquilo; ao certo e errado, etc.
- Entendo. Então?
- Então, o quê?
- Vai continuar do lado errado?

A primeira edição

          Assim se deu o diálogo entre dois velhos amigos: - É apenas um livro. - Não, não é apenas um livro, mas a primeira e...