Mário não queria pensar sobre aquele transe. Transe que pensava ser só dele e jamais esperaria que Lady K soubesse o que tinha acontecido. Contudo, seu pensamento retornava à Soraya. Sentia-se responsável por ela. Ela estava motivada por ter encontrado casa e sexo; e ele a enxotara. Ele a viu sair do prédio e se misturar à massa do calçadão de Nova Iguaçu. Ele não a conhecia bem para saber seus esconderijos. Alguns pensamentos o perturbavam. “Será que ela voltara para o bar do Peixoto?”, “Será que ela procurara seu antigo cafetão?”. Mário pegou seu 38 e desceu para a rua. Na saída do prédio, Osvaldo zombeteiramente, gritou:
- Olá, doutor Mário, aonde vai com tanta pressa! - Mário empurrou o zelador e o amaldiçoou.
Em poucos minutos, Mário já estava consumido pela multidão de zumbis do calçadão. Resolveu vasculhar por alguns becos onde tinha alguns conhecidos e deixou para procurá-la no Peixoto por último. Pensava que se estivesse no Peixoto estaria bem. Mário andava de pressa, coisa comum entre os moradores da Baixada Fluminense. Resolveu ir ao Iguaçu Center, uma galeria que nos anos 80 era o único lugar com cinema em Nova Iguaçu. Hoje era uma galeria sem expressão nenhuma e as duas salas de cinema passavam filmes eróticos. As salas de cinema viraram local para putas e travecos. Lembrou-se de Joana, uma moça que namorou e era bilheteira de uma das salas, Joana conhecia muita gente.
Mário não viu movimento na entrada do cine sexo. Resolveu tomar um refresco numa birosca da galeria. Pediu um refresco de laranja com acerola e sentou-se para esperar Joana. Olhava o movimento da galeria na esperança de ver Soraya. Nada. Por um momento se sentiu um idiota por estar preocupado com uma puta qualquer que passara a noite com ele e já se achava sua esposa. No entanto, esse pensamento dissipava quando lembrava do corpo de Soraya e sua entrega total. A vida machucara bastante Mário, mas aquela mulher, definitivamente, mexera com ele.
- Olha aqui esses filhos da puta! - Berrava o dono da birosca brandindo um pedaço de jornal amassado. - Olha aqui esses filhos da puta!
- Do que você está falando, amigo? - Perguntou o curioso detetive.
- Desses putos traficantes de papagaios e araras! - O homem falava com muito ódio e salivava irritantemente.
- O que eles fazem com as aves – Quis saber Mário.
- O que eles fazem? Esses putos exportam os bichinhos para os gringos! Se eu pegasse um desses filhos da puta… - Mário deixou o homem falando sozinho, pois via que se aproximava Joana do caixa do cine puteiro.
Mesmo sozinho o homem continuava a brandir o jornal e dizer desaforos aos traficantes de aves exóticas. Mário se aproximou pelas costas de Joana e tapou-lhe os olhos. A mulher levou um susto e virou-se de imediato, pensando se tratar de assalto ou algum tarado. Coisa que não faltava naquela galeria infernal iguaçuana.
- Porra, Mário, que susto! - Disse nervosa a caixa do cinema do prazer.
- Desculpa, meu anjo. Como você está? - Disse sorrindo o detetive enquanto olhava por inteiro a mulher.
Joana não era bonita como Lady K e nem sensual como Soraya, mas era uma mulata boazuda. Mário sentiu vontade de transar com ela quando lembrou dela nua. Mas ao observar sua mão direita viu-lhe uma aliança.
- Está noiva? - Perguntou surpreso Mário.
- Sim, estou. - Respondeu a mulata com certo orgulho e prazer em provocar certa frustração em seu antigo amante.
- De quem, sua safada? - Mário sabia que Joana adorava ser chamada de safada.
- Olha o respeito, Mário. Meu noivo é o atual dono das duas salas do iguaçu cine center. - Respondeu a mulher sem disfarçar o orgulho.
- Hahaha – Mário gargalhava tão alto que chamou a atenção da massa proletária que usava a galeria apenas para atravessar para o outro lado, o lado da linha do trem.
- Para com isso, seu retardado, não vê que todos estão olhando? - Joana agora se mostrava irritada.
- Tá bom, querida. Olha só, você conhece alguma Soraya? - Mário emenda o motivo de vir falar com Joana, antes que ela o enxotasse dali.
- Soraya? A loirinha do Peixoto? - Agora era a vez de Joana zombar de Mário. - Não vai me dizer que está interessado na putinha do Peixoto? - E Joana gargalhava deixando Mário desconsertado.
- Porra, Joana, pega leve. Tô tentando me acertar com a gostosa e você fica tentando me humilhar. - Mário realmente se expressava com pesar deixando transparecer sua fraqueza e queda pela loirinha.
- Tá bom, Mário, relaxa. Ela mora nesse chiqueiro aqui em cima do Center. - Joana resolve ajudar o pobre detetive apaixonado.
- Você sabe qual apartamento? - Mário agora parecia um menino falando.
- Eu acho que é o 910. - Respondeu a mulata com certa dúvida e emendou: - Cuidado, Mário, essa menina costuma andar com um pessoal da pesada. Por que você não deixa pra lá, cara e segue sua vida?
- Obrigado, Joana, mas preciso saber como ela está. É só isso. Vacilei com ela. - Confessou o detetive.
Mário dirigiu-se como uma flecha para o prédio em ruínas. Apartamento 910. O elevador estava com defeito e o detetive acima do peso teve que subir nove andares. A escada era imunda, as paredes mal tratadas, não havia ventilação na subida pelas escadas e Mário pensava que teria um enfarte. No quinto andar um jovem casal se pegava e se assustou quando viu o transpirante e sem folego detetive. Mário teve que parar para recuperar o ar e o jovem casal saiu rindo. No nono andar, Mário abriu a porta contra incêndio desesperadamente e entrou no corredor. Corria uma brisa que Mário agradeceu aos deuses. Achou o 910 e tocou a campainha. Uma velha enrugada e de sutiã e calcinha atendeu a porta.
- Bom dia, madame, posso falar com a Soraya? - Pediu educadamente o quase enfartado detetive.
- Soraya? Não, a Soraya foi embora. Ela voltou pra sua terra, ela foi pra Bahia, alguma cidade do interior baiano. - Disse a velha alternando a fala com uma tosse seca.
Mário cansado se apoiou na parede. Deixou-se escorregar até sentar-se no chão. A velha desconfiada fechou a porta e passou-lhe os trincos. Depois que o detetive recuperou o folego resolveu descer os nove andares e retomar sua vida medíocre. Pensou aliviado por ter o caso de Lady K. Pensou: “Foda-se essa baianinha de merda!”. E novamente o pensamento se dissipou rapidamente quando lembrou de Soraya nua lhe cavalgando. Lá embaixo, Mário seguiu em direção a saída dos fundos da galeria. Parou na saída e contemplava a multidão que lotava as ruas iguaçuanas. Resolveu dar um tempo para pensar. Sentou-se num murete e observava o movimento. O pensamento alternava Lady K, Soraya, Joana. Foi tirado do pensamento pela batida de uma porta de uma velha kombi azul parada a sua frente. Ouviu barulho de asas provocado pelo susto da batida da porta. Viu dois sujeitos que saíram da kombi entrando e sumindo galeria adentro. Mário chegou até a janela da kombi e viu uma porção de papagaios e araras presos em gaiolas. Lembrou do sujeito do bar da galeria. Seu coração acelerou. A adrenalina lhe deu forças e correu em direção ao bar. Quando chegou à porta do bar viu os dois sujeitos bebendo no balcão e conversando com o dono defensor das aves exóticas brasileiras. Mário, disfarçadamente, chamou o dono e lhe disse sussurrando.
- Amigo, disfarça, mas esses dois sujeitos acabaram de estacionar uma kombi nos fundos da galeria com uma porção de papagaios e araras. - Mário viu que a expressão do homem ia mudando conforme ele ia lhe revelando o crime.
- Olha, vá até a delegacia e procura o delegado Genuíno e conta pra ele, enquanto eu seguro esses bostas aqui. - Enquanto falava, o homenzarrão pegava um porrete e dava a volta do balcão. Aproximando-se dos dois traficantes, disse-lhes: - Vocês têm uma carga interessante na kombi, não?
- Sim, temos sim. O amigo tem interesse em fazer negócio? - Falou o sujeito mais magro e aparentemente o dono da mercadoria.
- Tenho não, mas tenho interesse em traficante filha da puta como você! - O gigante sacou o porrete e começou a distribuir porrada nos dois sujeitos que tentavam fugir sem êxito. O homem além de forte era super habilidoso com o tacape.
Enquanto o neanderthal do bar esfolava os traficantes, Mário descia as escadas da galeria gritando: “Traficantes! Traficantes!” apontando para o bar e outros lojistas amigo do gigante do bar também se armavam para esfolar os criminosos. Lá embaixo, Mário contou a história para as pessoas que confirmavam ao verificar a kombi. Arrombaram a porta do carro e pegaram as aves e levaram para a delegacia. Mário que não queria confusão e nem esse tipo de notoriedade, seguiu ruma a Otávio Tarquino. Enquanto caminhava deixando às suas costas a confusão aviária, ia pensando em Lady K e no transe sexual inesquecível. Dizia: - Que mulher! Que mulher! Será uma bruxa? - Colocando a mão no bolso sentiu seu velho 38, aquela confusão toda fez com que esquecesse de seu velho companheiro, pensou: "Deixa pra próxima."
