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Não, você não está sabendo ser livre.
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Não? Por quê, não?
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Joga essa bandeira no chão. Queime essa bandeira!
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Jamais!
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Está vendo? É justamente essa veneração que te aprisiona.
Cheguei
em casa e fiz algumas anotações sobre a conversa que tive com um
jovem que se dizia revolucionário, mas que carregava bandeiras
antigas e cantava músicas ultrapassadas. Preparei a aula do dia
seguinte e pus uma observação para que me lembrasse de falar sobre
essa conversa antes de começar a aula. Jantei e fui dormir.
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Bom dia.
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Bom dia!
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Antes de começar a aula gostaria de compartilhar com vocês sobre um
ocorrido entre mim e um jovem revolucionário, na rua do canal, no
downtown.
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O senhor e suas histórias…
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Sim, mas essa é bem ilustrativa…
Depois
que contei o ocorrido e depois de algumas gargalhadas dei sequência
à aula. Estávamos falando sobre o existencialismo do pós-guerra,
mas comecei introduzindo Kierkegaard. Almocei no refeitório do
college. Conversei com Arthur e tirei algumas dúvidas sobre as
eleições e a party. Participei de uma reunião com o director,
tinha algumas propostas de trip para mim. Aceitei uma para
Netherlands e recusei a de Cuba. Meu ano sabático se aproximava e
precisava de elementos nórdicos para meu book. Em casa dei comida
para o dog. Preparei uma comida congelada e cochilei na poltrona.
Entrei no google maps e viajei virtualmente nas ruas de Netherlands.
Fui dormir de madrugada, mas acordei num salto ao ouvir gritos do
lado de fora. Fui até a janela e olhei lá fora. Uma turba com
bandeiras e alguma coisa que queimava. De relance percebi uma sombra
escorada na parede de minha casa e próxima à janela. Era o jovem
revolucionário que pichava minha parede. Um deles que carregava
alguma coisa com fogo gritou e o pichador deu um salto, pulou o muro
e saíram correndo desaparecendo na escuridão das ruas de iluminação
marrom. Fui até lá fora e vi que o jovem que lutava por liberdade
pichara: ABAIXO OS FASCISTAS!
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Ah, sei! E é você que vai me ensinar ser livre?
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Não, meu caro, eu não, mas essa viagem você terá que fazer
sozinho, entende? Sem bandeiras, sem instituições e,
principalmente, sem violência contra a liberdade do outro.
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Fascista! Fascista!
Resolvi
me retirar, pois até mesmo as definições mais básicas se tornaram
fakes.
