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Obrigado, pastor, por me receber em seu gabinete.
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Ora, meu irmão, não precisa agradecer, estou sempre à disposição
de minhas ovelhas.
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Ah, sim, é verdade, por isso o senhor é o nosso pastor.
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Sim, mas o que lhe aflige, irmão?
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Olha, pastor, sou cristão há um bom tempo. E como o tempo voa, não?
Lembro das minhas primeiras aulas na classe dos catecúmenos, me
preparando para a confissão pública e o batismo.
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Sim, eu sei disso, irmão.
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Então, pastor, realmente o senhor usou a palavra certa: aflição.
Sinto um incômodo. Não é nada financeiro ou conjugal, mas
existencial. Da minha condição como cristão.
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Hum…
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Desculpe-me tomar o seu tempo, pastor, mas precisava ouvir o seu
conselho.
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Irmão, não precisa se desculpar.
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OK, é força do hábito. Então, eu gosto muito daquele versículo
da segunda carta de Paulo aos Coríntios. Ele fala que aquele que
está em Cristo é nova criatura, coisas novas são feitas. Entendo
que quando optei por estar em Cristo, estar na fé, a minha vida
sofreria uma grande revolução. E para ser sincero, nos primeiros
anos experimentei mesmo essa novidade de vida, mas…
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Mas?
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Desculpe-me, pastor, fico um pouco sem jeito de falar sobre isso. É
como se eu estivesse sendo ingrato a Deus.
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Não, irmão, percebo que tenta ser sincero com seus sentimentos,
então continue, Deus conhece seu coração.
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Sim, é verdade. Bem, com o passar dos anos não sinto mais essa
novidade, parece-me tudo a mesma coisa, um tédio me consome. E isso
me parece inadequado ao meu cargo na igreja, sou diácono e professor
da Escola Bíblica. As pessoas me têm como referência. Os jovens
sempre me procuram para que eu os explique alguma passagem mais
difícil da Bíblia. As mulheres me elogiam. Os anciãos me pedem
oração. Sinto-me feliz e agradecido a Deus por todas essas
atividades cristãs. No entanto, pastor, me sinto entediado. Um tédio
que me consome. A minha vida é uma repetição sem sentido.
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Como sem sentido, irmão? Você ajuda tanta gente.
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Sim, pastor, mas veja se me entende. Estar em Cristo é ser uma nova
criatura, é ser colocado sob nova perspectiva, mas tudo que eu faço
na igreja eu poderia fazer mesmo não estando em Cristo. Não vejo
essas coisas novas. A gente pode até vê-las no início, mas depois
de algum tempo elas somem, pois passam a fazer parte de nosso
cotidiano, repetitivas. E se a promessa são coisas novas, parece-me
que essas novidades têm um limite. E pensar que Deus tem limite,
parece-me contraditório.
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Entendo, irmão. Talvez seria interessante o irmão buscar novos
ministérios. O irmão já pensou em ser missionário?
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Ah, sim, pastor. Toda hora pesquiso sobre os vários ministérios que
existem nas comunidades cristãs. E vou-lhe confidenciar que já
visitei algumas comunidades e me pareceu que todos os ministérios
sofrem do mesmo problema, ou seja, a novidade só está no início e
a tendência é com o tempo se tornarem entediantes.
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Bem, não sei se todos os ministérios são entediantes.
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Ora, pastor, sem querer ofendê-lo, mas veja seu próprio ministério.
O senhor dá expediente aqui na igreja de terça a domingo. Cumpre
todas as obrigações pastorais. No início certamente o senhor está
empolgado com as novidades, mas com o tempo, como qualquer trabalho,
o senhor é assaltado pela mesmice, não?
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Bem, talvez, mas temos que estar sempre fazendo algo mais para nos
livrarmos do tédio de nossas obrigações.
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Ah, isso! O tédio sempre está ligado às obrigações! A obrigação
do zelador limpar a igreja todos os dias, a obrigação das irmãs da
oração em orarem todos os dias às seis da manhã, obrigações,
obrigações…
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Entendo, irmão. Talvez seria interessante, o irmão, fazer uma
viagem, mudar o seu cotidiano. O que acha?
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Não sei. Também não teria condições financeiras de bancar uma
viagem.
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Ora, vamos levar essa sugestão na próxima assembleia da igreja. Vou
propor que a igreja financie uma viagem ao irmão para Jerusalém e
Roma, com direito a acompanhante, que tal?
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Ah, sim. Obrigado, pastor.
A
assembleia aconteceu no segundo domingo após a conversa de Timóteo
e o seu pastor. A igreja entendeu a situação do querido diácono e
aprovou em massa a proposta do pastor. Timóteo pegou as passagens e
mais um dinheiro para ajudá-lo nas despesas de alimentação e
passeios turísticos. Timóteo pegou Lourdes e sumiram pelo mundo
atrás de novidades.
