-
Quem estava no plantão? - Perguntou o detetive que já assumira a
investigação.
-
Preciso checar com o gerente. - Respondeu timidamente o policial.
-
Então por que ainda não checou? - Almeida não tinha paciência com
os novatos. Com um copo duplo de café e um brownie já estava com a
adrenalina alterada. O café descia oprimindo a alma do detetive
exigindo ação, coisa que o brownie não conseguia evitar.
-
Chefe, é um tal de Cristóvão. - Voltou com a informação o
novato. Agora ele olhava com uma submissão reverente para o austero
e exigente detetive, como se estivesse diante de um deus.
-
E cadê esse “tal” de Cristóvão? - O novato sabia que os dedos
simulando aspas significavam perigo. Só agora percebeu que deveria
ter trazido mais informações sobre o principal suspeito do roubo da
grande loja de departamentos. Loja que sempre presenteava os
familiares dos policiais.
-
Desculpe-me, chefe. Vou interrogá-lo. - O novato tento consertar.
-
Não, pode deixar, cadê o Junqueira? - Aquela pergunta já era
esperada pelo novato, pois o Junqueira era o parceiro do Almeida por
mais de sete anos. Na delegacia costumavam brincar dizendo que eles
eram marido e mulher. E realmente, eles casavam bem na função de
investigadores. Já tinham solucionados vários casos difíceis. E
esse roubo da loja de departamentos aparecia como obrigação, como
gratidão aos donos.
-
O Junqueira está em Minas, chefe. Lembra daquela operação em
conjunto com a polícia mineira? - O novato sabia que Almeida estava
em Minas, mas ele precisava dizer alguma coisa para aliviar seu mal
início dessa manhã.
-
Que merda! E me deixam com um novato! Qual é o seu nome, garoto? -
Pela primeira vez, o chefe olhou para o novato com cara de desprezo.
O novato sabia que Almeida não era uma pessoa má, mas toda aquela
dissimulação era necessária para a formação do bom policial. As
ruas não são nossas casas, nossos lares. As ruas são o inferno. E
é preciso ser duro com os novatos para que endureçam cedo o
espírito e se tornem sagazes.
-
Ângelo, chefe. - Respondeu imediatamente o garoto.
-
Que merda de nome, não? Isso não impõe respeito, filho. - Parece
que Almeida abranda um tratamento percebendo o semblante abatido do
jovem. “Filho” invade o coração de Ângelo como um refrigério.
Ele dá um sorriso tímido e diz: - Talvez, Tavares seja melhor, não?
-
Sim, sem dúvida. Conheci alguns “Tavares” na polícia que eram
homens de muita sagacidade. De agora em diante te chamarei “Tavares”,
OK? Faça por merecer esse sobrenome, garoto! - Ângelo se sentia
agora mais seguro e confiante.
-
Agora faça o seguinte. Procure o gerente e o “tal” do Cristóvão.
Peça ao gerente para arrumar um local na loja que possamos
conversar. - Ângelo respondeu com um sim imediato e sumiu pelos
corredores que levavam à gerência.
Enquanto
esperava, Almeida pegava informações com a sua equipe que recolhia
amostras de digitais e as demais evidências que poderiam servir de
pistas. A loja teve que atrasar a sua abertura para os clientes não
interferirem nas provas. Quando a equipe já havia recolhido o máximo
de provas, Almeida liberou a abertura das portas. O chefe mantinha
contato com o senhor Júlio, o mais jovem dono da loja e que tinha
maior relação com os policiais. Júlio confiava em Almeida e deu
ordens para que todos seguissem suas orientações. Assim que as
portas foram abertas uma multidão já esperava lá fora para entrar.
Nesse mesmo momento, Almeida viu o novato acenando para ele e o
chamando. Almeida se aproxima do novato que está acompanhado de dois
senhores, certamente o gerente e o “tal” do Cristóvão.
-
Olá, detetive, meu nome é Emerson. Sou o gerente e o senhor Júlio
me orientou a lhe prestar todas as informações necessárias sobre
essa tragédia. - Almeida percebia que Emerson não era o gerente a
toa, o sujeito dissimulava bem o amor que ele tinha pela loja. É
claro que Almeida como todo detetive desconfiava de todos.
-
Sim, prazer, senhor Emerson. E esse deve ser o senhor Cristóvão,
não? - O detetive voltou-se para um sujeito baixinho e barrigudo. O
seu tipo físico denunciava uma má contratação. Almeida pensou
onde, Júlio, estava com a cabeça quando contratou um segurança
para sua loja com aquele tipo físico. Cristóvão quando ouviu seu
nome saindo da boca do detetive sentiu um arrepio de medo.
-
Sim, doutor, eu sou o Cristóvão, às ordens. - Cristóvão ajeitava
os óculos e não encarava o detetive. Almeida sempre atento aos
sinais do corpo já desejava algemar o pobre do segurança.
-
Não sou doutor, senhor Cristóvão, meu nome é Almeida. - Almeida
sugeria enquanto vasculhava cada poro do sujeito.
-
Ah, desculpe-me, senhor Almeida. Estou à disposição para
esclarecer essa ocorrência. - Cristóvão escolhia bem as palavras,
palavras do linguajar policialesco, coisa que ele via nas séries
policiais da TV.
-
Queira me acompanhar, detetive, até a sala da gerência. - Emerson
conduziu o detetive, o novato e o “tal” do Cristóvão até a
sala da gerência. Almeida decidiu começar a conversa com o
segurança enquanto sua equipe já seguia em direção à delegacia
com o material recolhido. Almeida pediu para que ficassem apenas ele,
o novato e o segurança na sala.
-
Senhor Cristóvão, essa é apenas uma conversa amigável para
podermos apurar o que aconteceu, OK? Caso seja preciso recolheremos
seu depoimento na delegacia, tudo bem?
-
Sim, detetive Almeida, sem problema. Estou aqui para ajudar.
-
Muito bom. - Aquela maneira de se expressar do segurança já estava
dando nos nervos do Almeida. Sua experiência dizia que aquele
sujeito escondia muita coisa. Mandou que Ângelo sentasse numa
cadeira ao lado e acompanhasse a conversa. Coisa que Ângelo obedeceu
imediatamente.
-
Senhor Cristóvão, durante seu turno de trabalho tudo correu bem?
-
Sim, tudo normal.
-
Mas houve um roubo expressivo durante seu turno.
-
Sim, eu sei, detetive. Mas posso lhe jurar que tudo correu como todas
as noites.
-
Bem, mas essa última noite não, né? Você costuma dar uma
cochilada?
-
Não, senhor. Sempre que estou de serviço perco o sono.
-
Perde o sono? Algum tipo de distúrbio?
-
Não, senhor, costumo dizer que é o hábito.
-
E como você me explicaria o roubo na loja durante o seu turno e o
senhor acordado?
Antes
que Cristóvão respondesse, Almeida se virou para o novato num gesto
que ele entendia bem, ou seja, ele deveria baixar a cabeça e colar o
ouvido na boca do detetive, pois este lhe passaria alguma ordem.
-
Ângelo, ligue para a Sônia, na delegacia, e manda ela verificar se
esse sujeito é fichado. Se for, manda ela me mandar via zap, OK? -
Ângelo não respondeu, apenas confirmou com um movimento de cabeça
e sumiu da sala.
-
Bem, o senhor sabe como esses ladrões são, né? Eles têm a pisada
leve, os movimentos silenciosos…
-
Sim, mas o senhor não costuma fazer uma ronda pela loja, até mesmo
para dar uma esticada nas pernas, já que o senhor não consegue
dormir?
-
Costumo, sim, senhor. Mas essa noite não fiz.
-
E por que justamente nessa noite do roubo o senhor não fez?
-
Olha, detetive, eu sei que o senhor deve estar pensando, mas posso
lhe jurar que não tenho nada a ver com esse roubo. Sou meio bobo,
mas não sou ladrão.
-
Senhor, Cristóvão, não lhe acusei de nada, mas você tem que
entender que todos que estavam na cena do crime são suspeitos, não?
-
Sem dúvida. Entendo sua situação.
-
Então, tá. Me diga, por que essa noite específica, o senhor não
fez a ronda?
Antes
que o vigia respondesse, Ângelo retornou à sala da gerência
silenciosamente. Sentou-se ao lado do detetive e com um movimento de
cabeça disse que já providenciara tudo.
-
Senhor detetive, eu preciso muito desse emprego. Sou aposentado pelo
INSS e ganho menos que um salário mínimo. O seu Júlio é uma
pessoa muito boa e me deu essa oportunidade para complementar meu
orçamento tão precário. Posso lhe pedir uma coisa?
-
Sim.
-
Vou-lhe dizer o que aconteceu e isso pode ficar entre a gente?
-
Por hora, sim. Como lhe disse, essa é apenas uma conversa e se for
preciso de seu depoimento, o senhor será convocado para prestá-lo
na delegacia, OK?
-
Sei. Sabe, a Isaura, minha esposa, me aconselhou ficar quieto e
esperar. Mas não poderia fazer isso por respeito ao seu Júlio,
entende?
-
Entendo, então me fale. Será nosso segredo nesse momento. Dou-lhe
minha palavra.
-
Sim, isso basta para mim, a palavra de um detetive. Senhor detetive,
a culpa é do Gabriel Garcia Marquez.
-
O quê? Tinha mais um segurança? Ou esse é o nome do meliante?
Antes
que Cristóvão pudesse se explicar, o novato se projetou à frente e
cochichou no ouvido do chefe.
-
Não, chefe, esse é um escritor.
-
Escritor? Senhor Cristóvão, o que esse escritor tem a ver com a
ocorrência? Ele esteve aqui essa noite?
-
Não, senhor. Até porque ele já morreu. O problema é a solidão,
sabe? Esse trabalho de vigia te coloca por oito horas noturnas numa
solidão profunda. E como já lhe disse, não consigo dormir quando
estou de serviço e como companhia trago sempre um livro. Quando
esqueço o livro faço ronda, quando trago o livro esqueço da ronda.
E acredito que na hora do roubo estava imerso na solidão de Gabriel
Garcia Marquez.
Ângelo
novamente se antecipa como se fosse o assessor literário de Almeida.
-
Ele se refere ao livro, chefe.
-
Ah, sim.
Antes
que Almeida continuasse seu celular vibrou. Era Sônia passando
informações sobre o “tal” de Cristóvão via zap. Almeida com
um gesto de mão pediu que o vigia esperasse. Acessou a mensagem e
depois de lê-la se voltou ao vigia, perguntando com um olhar
inquisidor.
-
E por que o senhor foi demitido do curso de informática após terem
sumidos alguns computadores durante seu turno de trabalho?
-
Ah, sim, nessa ocasião a culpa foi das minhas putas tristes.
-
Como assim? O senhor era um tipo de gigolô?
Novamente,
Ângelo se antecipa e cochicha para o chefe, mas antes que o novato
pudesse falar, Almeida dá-lhe um empurrão e emenda.
-
Vai me dizer que é culpa do “tal” de Garcia?
-
Sim, senhor. Naquela época andava decepcionado com o amor
matrimonial e recorri a ele.
Almeida
desiste de continuar a conversa. Libera o vigia e o aconselha não
trazer livros para seu turno de trabalho e fazer as rondas. Prometeu
que aquela conversa ficaria em segredo. Deu a mesma ordem ao novato,
pois palavra é palavra. Quando saiu foi interpelado pelo gerente.
-
Detetive, como foi, tudo bem?
-
Sim, tudo bem.
Almeida
dirigia-se para a saída da loja e ao seu lado como fiel escudeiro
lhe acompanhava Ângelo. Almeida interrompe a caminhada e volta em
direção ao gerente.
-
Senhor Emerson!
-
Pois não, detetive.
-
Quem é o responsável pelas contratações dos vigias?
-
Eu mesmo, senhor.
-
OK, então me escute, quando tiver que contratar um pergunte se gosta
de ler.
