quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Destino




Ele dizia que estava disposto a quase tudo, mas jamais mataria ou traficaria drogas ilegais.
- O senhor entende, não? Tenho minha honra. Pode contar comigo, pois tenho uma família para alimentar, o senhor sabe, não sabe? Lembra do Gregório? Lembra que cumpri suas ordens tal qual o senhor orientou? O senhor disse: “Um corretivo nesse nêgo!”. E aí fui eu e o Zé Pilintra, lembra? Moemos o neguinho. Deu até dó, mas não matamos. Então, patrão, pode contar comigo; mas peço sua compreensão nesses assuntos de honra.
O patrão sabia que podia contar com ele. Pedia meramente que respeitasse sua dignidade. Não poderia ter a consciência em paz se tivesse a mão suja de sangue ou ter levado jovens à dependência de drogas. Quanto às cobranças de dívidas e corretivos era imediatamente voluntarioso. Certa vez confidenciara ao Pilintra que sentia certo prazer em dar umas porradas nesses desgraçados.
- Sabe, Zé, a gente que não é nada nessa vida, quando tem a oportunidade de demonstrar autoridade, ainda que delegada pelo patrão, dá um certo orgulho, não? É gostoso ter nas mãos esse poder, ainda que seja por algum momento. Olhar nos olhos do desgraçado e ver o pânico, o terror, o pedido de misericórdia, ah, como isso faz bem! Depois de moer o pobre a gente perdoa e sai. Quando o sujeito nos encontra é como se tivesse vendo uma mistura de deus e diabo. Zé, não existe nada mais prazeroso que ter a vida de alguém em suas mãos e depois decidir que ele pode viver.
Desde o primeiro dia que o patrão o conhecera, na porta de uma padaria pedindo esmola, sabia que ele era o homem certo. Ele ainda era jovem, mas não tinha vergonha de se expor ali diante daqueles burgueses e, junto com seu filho, humilhar-se. O patrão sabia que um homem preguiçoso e em grande necessidade preenchia todos os requisitos que precisava. Era só questão de tempo.
- Eu jamais disse não ao senhor, patrão, mas o que está me pedindo é algo difícil para mim. O Jadir e o Tenório aceitarão isso com certeza. Mas, eu... O senhor sabe, a minha honra... minha consciência.
O patrão apresentou-lhe os termos. Sobre a mesa deixara um trinta-e-oito, uma foto e um endereço. Antes de sair, disse-lhe:
- É isso ou retornar à mendicância.

A primeira edição

          Assim se deu o diálogo entre dois velhos amigos: - É apenas um livro. - Não, não é apenas um livro, mas a primeira e...